Testemunha Perfeita - Capítulo 8: A Vítima
06h00. Segunda-feira.
Um corpo fora encontrado sob a ponte B. Uma jovem. Os sinais de morte violenta eram evidentes. Não havia decomposição avançada, mas os órgãos internos haviam sido removidos. A equipe de investigação chegou ao local após um chamado de um varredor de rua. O homem havia acabado de começar seu turno. Ele insistia que a área estava limpa no dia anterior.
Oliver passou por baixo da fita amarela de isolamento com as palavras CENA DE CRIME, NÃO ULTRAPASSE e caminhou em direção ao corpo. Sua unidade de patrulha estava varrendo a região, e portanto, foram os primeiros a chegar. Os cabelos ruivos da vítima, finamente cacheados, estavam empastados de umidade e terra pisoteada. Seu rosto parecia feito de cera, com um brilho repugnante de muco grudado na pele. Seus olhos estavam fechados, alguém tivera o cuidado de fechá-los.
Atrás de Oliver, os flashes das câmeras pipocavam, a perícia documentava a cena. Shaw sentiu os músculos das costas se contraírem. Assassinato na cidade era algo sujo e corriqueiro. Mas aquilo… aquilo era uma agulha gelada cravada sob sua pele. Um presságio.
Um passo firme e confiante esmagou o cascalho. Ele se virou. Uma mulher havia se aproximado do cordão de isolamento. Uma sombra caiu sobre o corpo. Ela parou atrás da fita como se tivesse se materializado da névoa cinzenta da manhã. Sem dizer uma palavra, vestiu um par de luvas de látex que rangeram com um estalo profissional. Um corte pixie curto e prático. Um rosto pálido, de maçãs do rosto altas, completamente sem maquiagem. Mas os olhos… Amarelos e predatórios, como os de uma serpente. Eles deslizaram sobre Shaw e logo se fixaram na vítima, varrendo, absorvendo, como duas câmeras.
Oliver endireitou a postura instintivamente. Ela se portava como uma mola comprimida, o olhar afiado como um bisturi. Em resposta à pergunta silenciosa dele, ela ofereceu apenas um aceno curto e preciso; a autoridade natural de quem não precisava de apresentações. Não esperou que ele levantasse a fita. Com um movimento brusco, passou-a para trás das costas e entrou no perímetro.
Um coldre de couro reluziu, exibindo um distintivo dourado e uma foto; o distintivo de detetive. Sem olhar, ela o enfiou de volta no bolso interno do blazer escuro.
"Cloud. Detetive. Quando ela foi encontrada?" A voz dela era baixa, uniforme, sem emoção. Como se estivesse ditando um relatório.
"Shaw, policial de patrulha. Aproximadamente entre 04h15 e 05h00. Encontrada por ele." Oliver apontou com a cabeça para a viatura estacionada mais adiante, onde um homem estava encolhido. Ele tremia, sacudido por soluços histéricos. A reação típica de um civil diante de uma “surpresa” matinal.
Sua presença já não era mais necessária. Uma nova jogadora havia entrado no jogo. A detetive Cloud se agachou sobre a Jane Doe ainda sem nome, tirando uma lanterna e uma lupa de um coldre gasto preso ao cinto.
…Shaw sentiu novamente aquela picada gelada sob a omoplata. Assassinato era o pão de cada dia dele. Mas esse… esse era diferente. E não era só pela vítima. A detetive Cloud… Seu profissionalismo frio e predatório, aquela precisão impassível… Parecia perfeito demais. Ensaiado demais.
Peter Miller caminhava pelo corredor banhado pela luz fria das lâmpadas fluorescentes. Seus passos pesados e ecoantes, acompanhados pelos passos leves e rápidos de sua assistente, eram pontuados por uma troca escassa de palavras.
"Tenho certeza de que é ele. Absoluta!" O homem apertava uma pasta contra o peito, os dedos cravados no papelão. "Achamos um nome, achamos o caminho até ele."
"Vanderbilt!" O sobrenome atingiu Daisy como um soco na têmpora, ecoando no vazio. De novo. Sua sombra pessoal, potente o suficiente para custar uma vida.
Peter empurrou a porta do escritório com força. A detetive Cloud estava sentada à mesa. Seu rosto pétreo e sem expressão não prometia nenhuma revelação imediata, ótimo. Isso significava que Daisy ainda tinha tempo para construir suas defesas.
"O processo ainda não está completo, Sr. Miller. O senhor está se adiantando. Enviarei os documentos para o seu assistente assim que estiverem prontos" disse Cloud, com a voz plana como a superfície de um lago parado.
"Vocês têm alguma coisa?" pressionou Peter.
"Órgãos internos removidos, embalsamamento realizado. Hora e local exatos da morte ainda a serem determinados. Três ferimentos à faca na cavidade abdominal, marcas de ligadura no pescoço. Relatório preliminar do legista: asfixia." Brenda virou uma página do relatório, o olhar distante e cansado.
O olhar da detetive deslizou primeiro sobre Peter, ardendo de fúria e empolgação pela caçada, depois recaiu sobre Daisy. O olhar de Brenda Cloud demorou-se nela por uma fração de segundo; rápido, avaliador, completamente desprovido de curiosidade. Naqueles olhos frios e cinzentos, Daisy leu não uma pergunta, mas uma afirmação clara: “Ah. A toupeira dos Vanderbilt na promotoria. Entendido.”
Não foi um contato. Foi um aviso silencioso. Mesmo que surgissem evidências, Daisy daria um jeito de enterrá-las. Brenda Cloud parecia conhecer as regras desse jogo de cor.
No corredor, Daisy quase colidiu com Oliver. Ele parecia exausto, com a sombra do chamado noturno estampada no rosto como um hematoma pesado.
"Ei. Não era da sua patrulha?" Daisy apertou o botão plástico da máquina de café. Um estalo fraco seguido de um chiado respondeu.
"Era… Meu turno acabou." Ele vestia a calça habitual e uma camisa leve de mangas curtas, mas seu olhar estava grudado no piso de pedra, como se procurasse ali uma resposta perdida. "Ela… não parecia morta. Parecia que estava dormindo. E aquela gosma…"
"Ouvi dizer que ela foi embalsamada" comentou Daisy, observando o líquido escuro escorrer para dentro de um copo plástico de estampa sem graça.
"Alguma identificação? Documentos?"
"Silêncio total até agora. Aff… Tomara que isso não vire dor de cabeça pra todo mundo" a voz de Oliver soou oca.
Enquanto Lockwood mantinha a conversa com Shaw, sua mente já traçava a rota: a longa estrada que cruzava a cidade inteira, pela via do anel. O silêncio do interior do carro, o ronco baixo do motor; sua única barreira contra o encontro inevitável com Theodore. Eles precisavam conversar. De onde viera aquele corpo? Onde ele o conseguira? Ela precisava se preocupar? Ele estava envolvido? As perguntas pairavam no ar, pesadas e insistentes.
Do lado de fora da janela do carro, colinas imensas deslizavam, seus picos crestados pelo sol empurrando o horizonte. O ar acima do asfalto tremulava, a névoa de calor subindo do pavimento e borrando a linha do céu como uma miragem. Cartazes gritantes de perfumes, blockbusters e fast-food invadiam periodicamente a paisagem monótona e previsível.
No meio de todos aqueles acontecimentos insanos, como fogos de artifício explodindo na escuridão absoluta de sua vida, Daisy às vezes se agarrava à memória daquele beijo na enfermaria do clube de golfe. E imediatamente suas pernas ficavam dormentes, perdiam contato com a realidade; um vazio rodopiante se apertava baixo em seu ventre; faíscas frias de arrepio desciam pela espinha.
Os pneus bateram contra o meio-fio, fazendo o carro parar bruscamente. A porta bateu atrás dela e a garota caminhou com determinação em direção à escadaria branca com colunas que levava direto ao hall de recepção. Ele havia construído para si uma espécie de palácio, um bolo de casamento de mau gosto: caro, chamativo, uma ofensa aos olhos. Gritava dinheiro lavado, corrupção e vício. Talvez tivesse ficado exatamente assim hoje se Theodore não tivesse feito esforço: a sala de visitas estava cheia de gente importante em paletós caros: rostos conhecidos e desconhecidos. Eles se aglomeravam como um bando de hienas, as vozes se elevando em explosões altas e gananciosas. Chaz, esticando o pescoço longo, espiava dentro de uma taça fina de champanhe dourado. Ele se mantinha afastado, tentando ficar fora do conflito.
"O que está acontecendo?" perguntou Daisy, aproximando-se.
"Exatamente o que você está pensando… Ninguém sabe quem é aquela garota" respondeu ele, girando a taça pelo pé delicado. "Theodore acha que foram os concorrentes que armaram toda a operação, mas eu…" Chaz olhou para Daisy com sua arrogância presunçosa de sempre "…acho grosseiro demais. Trabalho amador."
Jogar um corpo no meio da cidade, garantindo que fosse encontrado... de fato parecia suspeito. Theodore minimizaria todos os riscos, isso era óbvio.
Um jovem frágil, vestindo uma camisa branca solta e shorts na altura dos joelhos, entrou na sala. Ele parecia fresco e limpo, carregando uma bandeja de prata com uma pirâmide de taças que cintilavam sob o sol. A expressão de Theodore amoleceu no mesmo instante, a voz tornando-se terna e calma. Ele chamou Ash com um gesto. Daisy notou várias bandagens cor de pele no colo exposto dele.
Involuntariamente, ela registrou cada detalhe: a leveza quase etérea dos movimentos; a beleza perturbadora do rosto com traços angulosos e frágeis; o corpo esguio e ligeiramente anguloso que parecia ao mesmo tempo forte e indefeso sob a camisa larga. Seu olhar, normalmente analítico e frio, suavizou-se por um instante — quente, quase carinhoso — antes que ela se recompusesse.
"Ele se digna a aparecer…" sibilou Chaz. Não suportava a presença de Hollow e nem tentava disfarçar. Seu rosto se contorceu numa careta de nojo aberto, como se o próprio ar azedasse ao redor dele.
Ash fingiu não ouvir, embora tivesse captado perfeitamente a frase. Distribuiu o champanhe para os cavalheiros reunidos e, por fim, com deferência, ofereceu uma taça a Vanderbilt. Theodore o observava com um olhar lupino, predatório, como se Ash fosse um coelho encurralado; uma sobremesa viva antes do prato principal.
"Ofereça também para a minha Daisy, Ashly…" arrastou o homem, preguiçoso.
"Ah, não…" Daisy deixou escapar as palavras num suspiro quase inaudível até para si mesma. Mantinha a máscara de compostura glacial, mas mesmo a distância do jovem de cabelos escuros, tudo dentro dela começava a derreter e tremer.
Ash, como se não notasse nada, pegou uma taça, apoiou a bandeja no quadril e caminhou em direção a Daisy. Sua expressão parecia tão educada quanto a usada para o “clube dos homens”: o mesmo sorriso praticado, a mesma tentativa de parecer amigável.
Mas a mão dele… A mão dele cobriu suavemente, porém deliberadamente, os dedos dela ao entregar a taça. Os nós dos dedos frios e aveludados roçaram sua pele, só por um segundo, deixando um rastro ardente para trás. O coração de Lockwood começou a martelar como uma grande forja aquecida; um leve rubor tocou suas bochechas. Foi sutil, mas Chaz percebeu. E entendeu.
Um momento fugaz que Theodore não notaria; seu amante estava de costas para ele. Mas naquele breve toque foram transmitidas as emoções mais vívidas e proibidas do dia.
Ela havia escorregado. Sabia disso. Daisy se considerava uma rocha impenetrável. Nunca imaginou que essa fachada pudesse rachar. Talvez ninguém mais tivesse notado; ela quase tinha certeza disso. Mas na proximidade proibida dele, estava começando a perder o equilíbrio.
Ash desapareceu pela porta de serviço, e o trinco clicou suavemente atrás dele. O grupo de homens de terno retomou a discussão. Daisy permaneceu congelada no lugar. Até que dedos estalaram bruscamente diante de seus olhos.
"Que diabos foi isso?" perguntou Chaz, com a voz seca, sem entonação. Depois, ele sorriu de lado. Inclinou-se perto do ouvido dela e sussurrou tão baixo que as palavras mal eram audíveis: "Tem alguma coisa rolando entre vocês dois?"
"Chaz…" A voz de Daisy saiu gelada, entremeada de aço. "Sua mente deturpada está se fixando nas coisas erradas."
"Ah, claro. Então o que aconteceu na enfermaria foi só coisa da minha imaginação…" O homem continuou girando a taça entre os dedos longos. "Nojento. Se eu fosse aquela puta…" ele baixou a voz para um sussurro quase inaudível "…eu teria cortado a garganta de Theodore há muito tempo. Mas é escolha dele, Dais. Ele foi até ele. Ele aceitou. Não tente salvá-lo."
Mesmo que fosse verdade, Ash estava sofrendo. Ela havia visto os danos — tanto físicos quanto psicológicos — com os próprios olhos, então Chaz estava errado. Ele não tinha visto o que Theodore fazia com Hollow, mas ela sabia. Sabia muito bem.
"Daisy, venha aqui!" Theodore estava largado numa poltrona larga. "Não faço ideia de onde veio aquela garota, não me lembro dela. Temos certeza de que alguém de fora plantou o corpo; a polícia já está desconfiando de nós. Mas eles não têm nada. E não vão ter. Escute o nosso homem de dentro nesse caso e elimine qualquer evidência que possa me incriminar. Entendido?"
Um senhor mais velho, parado atrás dele com as mãos educadamente entrelaçadas, ofereceu um elogio:
"Sua filha é tão inteligente, Theodore. Meus idiotas não querem saber de negócios da família, só sabem desperdiçar dinheiro por aí."
"Claro, Josh. Theodore Vanderbilt não poderia ter outra herdeira. Não compare seus imbecis com a minha Daisy." O anfitrião elogiava a si mesmo.
Sim, exatamente. A filha de Theodore Vanderbilt, nomeada herdeira desde o nascimento. O canto do lábio de Daisy se ergueu num triste simulacro de sorriso.
"Com licença, preciso voltar ao trabalho. Tenham uma boa noite." A garota se despediu e seguiu para a saída. Chaz foi atrás.
O homem rebateu com bom humor:
"Ufa, Theodore te chamou de herdeira. Engraçado. E as putas, pelo visto, fazem parte da herança?" Ele ria dela. Dos sentimentos que mal começavam a brotar nela.
"Cale a boca. Eu trabalho para o meu pai, e tudo o que você sabe fazer é vocalizar suas fantasias molhadas sobre uma nova sociedade. Quando pretende agir? Amanhã? Semana que vem?" Ela falou com tom equilibrado, mas a irritação era perceptível na voz. "Posso ser apenas uma peça, mas graças a mim esse sistema funciona. Theodore confia em mim, e é isso que importa."
"Sério? Fala mais baixo… as paredes têm ouvidos." Chaz ergueu uma sobrancelha, brincalhão, e se virou devagar. "Ei, garoto de programa, chega de ficar aí parado. Vem cá."
Depois de dar um passo confiante depois da curva, Ash apareceu. Não pareceu surpreso por ter sido descoberto; caminhou calmamente até Daisy e Chaz.
"Não pensem nada demais, eu não estava tentando escutar. Só não quis cruzar o caminho e interromper a conversa de vocês." Ash estava impassível: comportava-se perfeitamente, como sempre. Olhou para Daisy mais uma vez, como se prometesse que tudo ficaria bem.
"Ah, claro. Você não poderia fazer nada mesmo. Com um corpo todo marcado desse jeito, o que você poderia fazer?"
Chaz deu um tapa rude nas costas dele. Daisy reagiu imediatamente, segurando o braço dele. Ergueu a mão para bater. Ash, encolhendo-se, segurou-a pelo ombro. O calor suave e quase imperceptível da palma dele a deteve.
"Por que você fez isso?" Daisy perguntou a Montefiore. "Você é insuportável."
"Oho, agora estamos bancando a protetora? Cuidado." Chaz riu baixinho. A provocação daquele desgraçado fez o sangue dela ferver, uma pressão derretida se acumulando dentro dela como magma prestes a entrar em erupção.
"Daze, calma." Ash segurou gentilmente a mão dela novamente. Ele era macio, como açúcar fiado, provocando um espasmo agradável bem baixo em sua barriga. Lockwood não tentou escapar dos dedos dele; pelo contrário, tentou prolongar o contato um pouco mais. Talvez Ash não tivesse percebido a mudança global no comportamento dela, mas Daisy já entendia tudo perfeitamente.
"Eu não consigo ficar calma quando alguém te machuca." A voz dela saiu num meio sussurro, o olhar preso nos olhos dele. "Eu te disse, você pode vir até mim se as coisas ficarem realmente ruins. Você é como… família para mim."
"Eu sei… Eu tenho que ir." Uma tristeza breve cintilou nas pupilas dele.
No mesmo instante, a porta se abriu e os convidados de Vanderbilt começaram a sair. Daisy e Ash se afastaram rapidamente, indo para lados opostos: Lockwood em direção às escadas, Hollow em resposta ao chamado de Theodore. O coração dela se apertou num torno ao ouvir o “querido” meloso de Theodore dirigido a Ash.