Testemunha Perfeita - Capítulo 5: Território Ocupado
O sono era um luxo que Daisy se recusava a conceder.
Algumas horas inquietas no sofá a deixaram exausta e com o pescoço rígido. Não era culpa de Ash (ele dormira como um morto), mas de seus próprios pensamentos, um enxame circulando a forma escura em sua cama. E o sofá, antes tolerável, havia se transformado em um instrumento de tortura, cada canto cravando-se em sua carne.
Ash, por outro lado, parecia inquietantemente bem descansado. Desceu as escadas com uma preguiça fácil e desconhecida, mal tocando o corrimão. A luz da manhã, afiada e mordaz, capturou seus pés descalços quando ele entrou na sala; frágeis demais para este mundo. Suas roupas amassadas pendiam dele como um saco, acentuando sua silhueta esquelética.
Daisy arrumava os talheres na mesa de jantar, um artefato caro e empoeirado que servia apenas como lembrete de uma vida normal que não existia ali.
“Bom dia”, ela soltou, sem entonação, sem erguer os olhos da prataria. As colheres ornamentadas captavam o sol e lançavam riscos irregulares de luz sobre suas maçãs do rosto — pequenas armas frias sobre o linho branco.
“Ei”, a voz de Ash estava rouca de sono, mas surpreendentemente… viva. Ele se aproximou, observando os lugares postos com uma curiosidade fingida que não conseguia esconder a cautela em seus olhos. “É, obrigado… estou bem melhor. Você… cozinha?” A pergunta ingênua pairou no ar. Os dois sabiam que Daisy Lockwood não cozinhava. Não para alguém como ele.
A resposta dela foi um gesto seco apontando para as sacolas de delivery amontoadas junto à parede como mendigos diante de um templo.
“Ah, entendi. Deixa eu pelo menos ajudar a desempacotar.” Ele deu um passo na direção das sacolas.
“Sente-se.” A voz de Daisy o cortou, curta e dura. Ela mesma foi até as sacolas, tirando os recipientes plásticos com uma eficiência sem alma. Qualquer esperança que Ash tivesse de um degelo após a papa e as lágrimas do dia anterior se estilhaçou contra esse gelo. Ela voltou a ser uma estátua, polida e letal. A suavidade havia desaparecido; ela se sentia esvaziada.
Um prato se materializou diante de Ash: iogurte sem lactose, uma porção arrumada de frutas salpicada com chia e aveia. Saudável. Complicado. Ao ver a comida, o rosto dele se contorceu levemente, um espasmo apertando sua garganta, o estômago protestando em silêncio.
“Sério?” Ele tentou sorrir, mas o sorriso saiu torto. “Eu… normalmente não como café da manhã. Não desce.” Ele se sentou ereto, mas todo o seu corpo era um fio esticado prestes a romper.
Daisy, enquanto isso, espalhava abacate no torrada com gestos rituais — uma pasta verde e oleosa que lembrava a carne decomposta de uma planta. Sem olhar para ele, declarou:
“Você precisa comer. Não vou forçar, mas se não começar a reconstruir alguma coisa”, ela finalmente ergueu o olhar para ele, gelado e implacável, “você vai apodrecer vivo. Não vou te dar comida na boca de novo. Não é um pedido. É uma afirmação.”
Ele suspirou, rendendo-se. Pegou a colher. O primeiro pedaço de iogurte desceu como vidro moído. O segundo, um pouco mais fácil. Ele engolia metodicamente, como um homem cumprindo uma sentença. Tentando. Era quase comovente. Quase.
“Ele te machuca?” perguntou Daisy sem rodeios, quebrando o silêncio. Sua voz foi como um bloco de gelo seco caindo sobre os ombros de Ash.
Ele se encolheu. A colher tilintou contra o prato. A máscara de afabilidade escorregou, revelando um pânico feral e instantâneo. Então ela voltou ao lugar, mas agora torta, forçada.
“É…” ele tossiu, “…coisas de quarto, Dais. Você sabe como ele…” A voz dele falhou num tom agudo, traindo a mentira. Ele a forçou a voltar ao normal: “Dizer ‘não’ para Theodore? Isso é suicídio. Lento, mas garantido.” Seus olhos carregavam uma pergunta muda: Por que você está fazendo isso? Por que me obrigar a dizer em voz alta?
Daisy se levantou abruptamente. Caminhou até a pesada cômoda perto da entrada. Abriu uma gaveta. Chaves tilintaram — chaves solitárias e estranhas. Ela as lançou num arco curto. Ash as pegou por reflexo, olhando surpreso para o metal frio em sua palma.
“Chaves”, esclareceu Daisy, olhando para um ponto além da cabeça dele. “Da casa. E da garagem. Lembre-se, eu só tenho duas cópias.”
Ele olhou das chaves para ela, confusão misturada com uma esperança cautelosa que começava a nascer.
“Para você saber para onde vir”, a voz dela saiu monótona, como se lesse um relatório. “Quando não tiver mais para onde ir. Ou quando for perigoso. Afinal, somos ‘irmão e irmã’.” Ela fez aspas afiadas e sarcásticas com os dedos. “Laços familiares. Ajudar uns aos outros é sagrado, não é?” Não havia nem um pingo de sacralidade em seu tom. Apenas cinismo e algo mais cansado, condenado.
“Você… está falando sério?” A voz de Ash falhou, uma mistura de descrença, alegria infantil e algo perigosamente próximo à histeria. Lágrimas brilharam em seus cílios. “Obrigado! Mana, eu…” Ele se levantou num impulso, instintivamente dando um passo na direção dela, os braços estendidos para abraçá-la, para encontrar alguma âncora naquela loucura.
Daisy recuou meio passo. Um. Preciso. Intransponível. Seu olhar era uma barreira congelada. A alegria no rosto de Ash se apagou, substituída pelo sorriso familiar e forçado. Ele recuou, apertando as chaves com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
“Eu… posso usar o chuveiro aqui?” perguntou ele baixinho, voltando à cautela, mascarando o turbilhão interno.
Daisy assentiu, curta e profissional.
“Pode, irmão.” A palavra pingava veneno. “Vá em frente.”
Naquele momento, Daisy não poderia imaginar como os dias que levariam ao encontro de sábado com Theodore no clube de golfe se tornariam impossíveis. Ingenuamente, ela pensara que oferecer refúgio a Ash significava manter o controle. Como estava errada.
Ela saiu para o trabalho envolta em uma calma glacial, esperando que Ash tivesse o bom senso de desaparecer até sua volta. No entanto, ao cruzar a soleira naquela noite, Daisy congelou. O ar de seu santuário havia mudado; estranho, saturado de um perfume masculino desconhecido e da sensação opressiva de invasão.
Ash se comportava como se aquele fosse seu domínio. Não como um hóspede, mas como um invasor reivindicando território. Em seu closet meio vazio e ascético, várias malas caras agora se exibiam, seus detalhes chamativos contrastando violentamente com seus ternos severos. O banheiro, antes um templo de minimalismo estéril, havia se transformado numa farmácia de beleza: fileiras de potes e frascos para rosto, cabelo e corpo disputavam espaço nas prateleiras, refletindo inúmeros brilhos no espelho. Seu espaço sagrado de vazio e ordem estava sendo preenchido por objetos estranhos e gritantes. E o próprio Ash? Ele não fazia absolutamente nada útil. Ficava largado no sofá, assistindo séries no laptop dela. Dormindo na cama dela. Vivendo.
Lockwood tentou se refugiar no escritório, enterrando-se em processos e protocolos — ilhas de controle familiar. Não havia santuário ali também. Ele aparecia como uma sombra, empoleirava-se no braço da cadeira dela, observando. Fazia perguntas — inocentes na superfície, mas tão vazias, tão absurdamente superficiais no contexto do trabalho dela, que arranhavam como unhas em vidro. Uma mosca persistente que ela não conseguia espantar.
Ele havia conseguido tudo isso em um único dia.
Então veio o inevitável: Ash bateu nos bolsos, o rosto nublado com um desânimo fingido. Celular. Desaparecido. Daisy sugeriu friamente que ele provavelmente havia caído. Não admitiria que ela mesma o havia destruído num acesso de raiva.
Ele comprou um novo e mergulhou nele com o mesmo deleite infantil e egocêntrico de uma criança com um tablet dentro de uma capa ridícula. Ele passava diante dos olhos dela, fazia barulho, de repente começava a cantar — um som agudo e desafinado invadindo o silêncio dela. Sim, ela sentia pena dele. Mas a pena se afogava na maré crescente de desconforto, na sensação de que sua fortaleza, seu último bastião de calma, estava sendo sistematicamente desmontada de dentro para fora.
O ápice veio naquela noite. Daisy, procurando um grampo de cabelo que havia caído, abaixou-se ao lado da cama. Seu pé esbarrou em algo sólido, escondido nas sombras profundas. Ela sentiu um material liso, puxou. À luz surgiu uma caixa pesada de veludo negro, que emitiu um estranho chocalhar multitonado ao se mover. O coração de Daisy se apertou com um mau presságio. Ela colocou a caixa na borda da própria cama, os dedos encontrando o fecho. A tampa se abriu com um sussurro suave.
O rosto de Daisy permaneceu uma máscara, mas o mais leve rubor de raiva tingiu seu pescoço, subindo até as maçãs do rosto. Suas sobrancelhas se franziram, irradiando uma agressividade fria e concentrada.
“Ash…” A acusação pingava de suas palavras baixas e metálicas, ecoando no silêncio do quarto.
Aninhados no veludo como algum tesouro perverso, eles estavam lá. Brinquedos sexuais. Dezenas deles. Diferentes formatos, tamanhos, materiais e cores — do rosa suave ao preto ameaçador. Alguns eram vagamente reconhecíveis; outros, monstruosos, incompreensíveis em sua explicitude. Em seus vinte e cinco anos, Daisy só havia visto coisas assim em relatórios criminais, bem distantes de sua realidade ordenada.
“Sim? Me chamou?” Ash apareceu na porta como se nada estivesse fora do lugar, sem o menor vestígio de vergonha. A calma dele diante da descoberta de um arsenal tão íntimo debaixo da cama dela era insultante.
“O que exatamente você faz aqui enquanto eu estou fora?” perguntou Daisy, cada palavra uma agulha de gelo.
“Ei!” protestou ele, fingindo indignação, erguendo as mãos. “Eu não uso eles aqui! Palavra de escoteiro!” Com uma agilidade que desmentia sua aparência usualmente exausta, ele fechou a tampa com um estalo e empurrou a caixa de volta para debaixo da cama, para a escuridão. Como quem esconde uma prova.
“Então por que trouxe isso para cá?” A voz dela não subiu nem um decibel.
“Hum…” Ele deu de ombros, como se fosse a coisa mais natural do mundo. “Só porque sim. Eu… me sinto melhor quando minhas coisas estão por perto.” Suas coisas. Debaixo da cama dela.
Daisy sentiu sua paciência — aquela forjada sob o calcanhar de Theodore por anos — começar a rachar. Ela encontrou um novo ponto de pressão, uma saída diferente para a submissão que lhe era imposta. Ele precisava de um choque de realidade.
“Você já parou para pensar”, a frase caiu como um banho frio, “que Theodore pode já estar procurando por você?” Um lembrete: Você é temporário. Você pertence a ele. Está na hora de voltar rastejando para sua gaiola.
Ash apenas acenou com a mão, displicente, quase desdenhoso.
“Ele está ocupado até sábado. Vamos nos encontrar no golfe.” As palavras dele pairaram no ar como uma sentença sombria para Daisy. Ela havia estendido a mão para uma vítima. Não esperava que a vítima se transformasse tão rapidamente num companheiro de casa invasivo e devorador, preenchendo cada fresta de sua existência.
“Ash”, disse ela com esforço, espremendo os últimos resquícios de compostura. Sua voz estava controlada, mas o aço vibrava próximo ao ponto de ruptura. “Enquanto estiver aqui, comporte-se. Em silêncio. Com calma. Não interfira no meu trabalho.” Não era um pedido. Era um ultimato, cuspido entre dentes cerrados.
Ele a olhou com uma confusão fingida misturada a um leve deboche.
“Daisy, você vive assim… é tão chato. Casa, trabalho, trabalho, casa. Você nunca quer simplesmente… relaxar? Desestressar?” O olhar dele desviou para a cama onde a caixa de veludo havia desaparecido.
“Não, Ash. Eu não quero.” A resposta foi curta, afiada como uma guilhotina. Ela se virou bruscamente e desceu as escadas. Cada passo era pesado, carregado de uma fúria não verbalizada, ecoando surdamente na casa silenciosa. Lá embaixo esperava o sofá — seu leito temporário e desconfortável. E como acorde final daquele dia infernal — uma mancha pegajosa na almofada. Algo havia sido derramado. Um cheiro doce e enjoativo. Ash.
Ela arremessou a almofada no chão. Os últimos vestígios de autocontrole evaporaram. A agressão acumulada por horas cravou garras afiadas em sua garganta. Ele estava em todos os lugares. No closet dela, no banheiro dela, no laptop dela, na cama dela, debaixo dela, em seu silêncio, no ar que ela respirava. E agora, no sofá dela. Uma mancha pegajosa, doce e indelével.
Lockwood não podia jogá-lo de volta para as mandíbulas de Theodore — não agora, com poucas horas restando até sábado, até aquela maldita reunião no clube de golfe entre os investidores-hienas de seu pai. A sexta-feira agonizava lá fora, pintando a cidade em tons roxos de exaustão.
Daisy estacionou na garagem e subiu as escadas até a cobertura. Cada degrau ecoava pesado em seus ossos. Em uma coisa, pelo menos, Ash tinha razão: ela estava esgotada. O trabalho, a presença dele, a tempestade que se aproximava... tudo se fundia num zumbido contínuo de tensão.
Ao cruzar a soleira, ela se deparou com Ash esparramado no sofá. A tela do laptop piscava com alguma série, e ele segurava um copo de smoothie de uma cor artificialmente vibrante. A imagem de despreocupação era desconcertante.
“Ei, mana! Como foi o trabalho?” ele cantarolou, com uma alegria falsa que provocou uma onda de náusea em Daisy. Sim, ele claramente estava se recuperando — havia cor em suas bochechas, os movimentos mais firmes. Mas ver aquela leveza reconquistada dentro de seu inferno particular era insuportável.
“Tudo bem”, respondeu ela secamente, sem olhar para ele. “Vou usar o banheiro.”
Passou por ele e bateu a porta atrás de si, girando a chave. O clique da fechadura soou, o único limite confiável. Silêncio. Apenas sua própria respiração. Abriu a banheira, deixando a água quente jorrar enquanto dissolvia um punhado de sais de lavanda. O vapor embaçou o espelho, apagando seu reflexo.
O banheiro havia se transformado num campo de batalha com as coisas dele espalhadas por todo lado. Mas o verdadeiro nojo se enroscava em seu estômago — sua própria incapacidade de chutá-lo para fora. Patética, sussurrou aquela voz, pingando o veneno de Theodore.
Ela afundou na água. O calor escaldou sua pele, penetrando mais fundo, tentando derreter o gelo que prendia seus músculos e sua coluna. Não pense em Ash. Não pense em amanhã. Não pense. Um suspiro pesado escapou sem que ela quisesse, subindo à superfície em bolhas. Dormir. Uma cerveja gelada na geladeira. Seus pensamentos deslizavam para desejos primitivos e salvadores.
A água esfriou. Ela saiu, enrolando-se numa toalha pequena que mal cobria suas coxas e seios. Gotas geladas traçavam caminhos pela suas costas, pernas e pele aquecida. Por dentro, ela ainda ardia. Saiu do banheiro ignorando o sofá. Atravessou a sala como se caminhasse através de névoa, indo em direção à ilha da cozinha. A toalha grudava na pele úmida, revelando a linha dos ombros, a curva da cintura e o brilho molhado das coxas. Gotas caíam no piso de pedra, escurecendo a superfície polida.
A geladeira se abriu com um suspiro reumático. Ela pegou uma lata fina e gelada de cerveja de cereja light. O chiado ao abrir. O primeiro gole — uma lâmina fria descendo pela garganta, uma leveza instantânea nas têmporas. O segundo — mais profundo. O zumbido se espalhou, embotando as arestas da realidade, aliviando um pouco do peso. Refrescando o calor.
A sombra caiu antes que ela ouvisse os passos. Ele apareceu silenciosamente, parando perto demais. Seu hálito — uma corrente quente — roçou a pele úmida do ombro dela. Uma fronteira havia sido cruzada. Seu frágil esquecimento se estilhaçou.
“Você está fazendo isso de propósito?” A voz de Ash saiu tensa, anormalmente baixa, como um fio esticado ao limite.
Daisy virou-se devagar. Uma gota de água de uma mecha molhada caiu sobre seus cílios e ficou ali, distorcendo sua visão. Ela não piscou para afastá-la.
“Se acalme, Ash”, sua própria voz estava rouca por causa da água e do cansaço, mas glacial. “Eu não sou um homem de cinquenta anos. Nem sou homem.”
O canto de seu lábio se contraiu num sorriso sem alegria. Uma cutucada. Na feminilidade dele. No papel dele. Na segurança dele.
“Eu não sou gay, caso você não tenha percebido”, sibilou ele, estreitando os olhos. “Se quiser, a gente podia sair juntos uma hora dessas…” Perto demais. O cheiro da pele dele — laranja, algo doce — misturava-se com o dela de lavanda e cerveja. Uma traiçoeira aceleração do pulso sob suas costelas.
“Não, obrigada, Ash”, Daisy bufou, tentando manter a máscara de desprezo. Mas seu coração batia surdo contra as costelas. Ele era irritantemente bonito naquela raiva. Cabelos negros caindo sobre a testa, cílios longos, maçãs do rosto esculpidas num rosto subitamente duro. “Você é como um irmãozinho para mim, lembra?” ela disparou, mas sua voz vacilou. Um calor estúpido e traiçoeiro se espalhou baixo em sua barriga, uma tensão doce e pegajosa. Fraqueza. Erro.
“Hah, irmãozinho uma ova…” Ash soltou uma risada amarga. “Nós dois somos as putas do Theodore. A minha só tem uma coleira mais curta.” Ele se moveu com a rapidez de um raio. Mãos fortes apesar da magreza agarraram suas coxas úmidas, erguendo-a para cima do balcão de pedra frio. Um frio cortante contra a pele nua. Antes que sua mente pudesse reagir, os dedos dele — quentes e úmidos — se fecharam como algemas em torno de seu pulso. O frágil Ash? O choque a paralisou por uma fração de segundo.
“Cuidado, Ash, não vá desmaiar de novo”, tentou zombar, mas sua voz tremeu levemente. Pânico, desafio e desespero faiscavam no fundo de suas pupilas. “Todo o seu sangue vai descer pra lá. Você vai desabar.”
Ele não respondeu. Em vez disso, puxou com violência a mão capturada dela para dentro do próprio short. A palma de Daisy colidiu com carne quente. Uma ereção grande e rígida. O choque deu lugar a uma raiva cegante, branca e incandescente. Primitiva. Humilhante.
Seu punho livre, carregando cada grama de fúria, exaustão e nojo, acertou em cheio o plexo solar dele. Ash soltou um gemido engasgado e se dobrou ao meio, liberando o pulso dela. Pontos pretos dançavam diante de seus olhos por causa da dor e da falta de ar. Daisy não lhe deu trégua. Deslizando para fora do balcão, ela o girou num movimento fluido e pressionou o rosto dele contra a mesma pedra gelada. Seus braços foram torcidos para trás das costas num golpe doloroso e profissional. A toalha escorregou até o chão com um tapa suave. Ela ficou atrás dele, completamente nua, molhada, respirando com dificuldade como um animal encurralado. Água do cabelo pingava sobre o pescoço dele, sobre a gola da camiseta.
Ash tossiu roucamente, lutando para respirar. Então, de repente, ficou mole em seu aperto, traiçoeiramente dócil.
“Eu… eu não ia fazer nada mesmo”, conseguiu dizer através da dor, a voz quebrada, despida de suas antigas entonações. “Qual é o problema? Parece que você nem me vê como homem.” Uma confissão arrancada pela dor e pela humilhação.
“EU DEVERIA?” O grito dela irrompeu, afiado como um tiro, um chicote sobre uma ferida aberta. Ela pressionou o rosto dele com mais força contra a pedra. “Saiba qual é o seu lugar, Ash. Você é uma coisa do Theodore. E eu não como sobras dele.”
As palavras pairaram no ar. Pesadas. Venenosas. Voláteis. Brutais a ponto de serem cruéis. Humilhantes. E uma terrível verdade.
Ele congelou. Todo o seu corpo ficou completamente mole. Não era resistência. Era uma derrota total. Não física, e sim moral. Quebrado.
Daisy soltou os braços dele com violência. Recuou bruscamente. Agarrou a toalha molhada e se cobriu de forma mecânica. Um tremor percorreu seu corpo, não de frio. Da selvagem onda de adrenalina. Da consciência do abismo que haviam acabado de espiar. Daquela faísca traiçoeira de excitação que ainda ardia baixo em sua barriga, entrelaçada com a repulsa que ameaçava explodir contra ele, contra si mesma, contra toda aquela sujeira.
Ash se endireitou lentamente, sem se virar. Esfregou os pulsos onde as marcas vermelhas dos dedos dela floresciam. Seus ombros caíram, as costas se curvaram.
“Entendi, mana”, sussurrou ele, a voz oca, queimada. “Meu lugar. A coisa do Theodore.” Ele não olhou para a nudez dela. Não encontrou seus olhos. Apenas se arrastou para longe, mais para dentro da cobertura, em direção às escadas que levavam ao andar de cima. Sua sombra, projetada pela luz da cozinha, parecia pequena, patética, indefesa.
Daisy permaneceu parada ao lado da ilha. Seus dedos ainda guardavam a lembrança do toque ardente dele. Sua boca tinha o gosto amargo da própria crueldade. Apertou a toalha com mais força contra o corpo, mas se sentiu nua até os ossos. Não diante de Ash. Diante de si mesma. A guerra contra seu pai mal havia começado, e ela já havia ferido seu único aliado — frágil e perigoso — mais profundamente do que qualquer inimigo conseguiria.
O silêncio da cobertura voltou a se fechar, mas agora era denso, viscoso, saturado de veneno e mau presságio. O jogo de golfe de amanhã seria um inferno.