O Túmulo do Cisne (NOVEL)
January 3

O Túmulo do Cisne (NOVEL) - Capítulo 2 (4/8)

Cisne, Anna – Parte 4.

Ao contrário da fama notória da mansão, as criadas ali eram, no geral, boas pessoas. Graças a elas, Anna tinha conseguido aguentar até agora. Deitada na cama, ela fechou os olhos com força.

Ela tentou com todas as suas forças apagar de sua memória o toque de Rothbart, a dor, os sussurros, um por um.

Mas quanto mais ela tentava, mais profundamente os vestígios dele se agarravam à sua mente. Como se zombassem de suas tentativas.

Como se Rothbart tivesse cravado uma estaca em seu coração.


— Você é sempre assim. Só pensa em si mesmo.

Banhada pela luz que entrava, uma mulher com a janela às suas costas falou suavemente com Rothbart. A voz tranquila e gentil que ele sempre almejara, quase como um sussurro. Embora Rothbart soubesse que era um sonho, ele se afogou de bom grado em sua voz. Mesmo que as palavras ditas fossem de reprovação.

— Você nunca se importa com o que eu sinto.

— Isso não é verdade, Ianna. Como pode dizer isso? Tudo o que eu preciso é você.

— Mentiroso.

O único amor de Rothbart, Ianna, sorriu amargamente. Ela estendeu sua mão pálida e esguia, acariciando a bochecha de Rothbart enquanto ele se agarrava à sua cintura.

— Roth, você vai viver muito bem sem mim. Não vai? No fim… eu fui escolhida apenas para carregar o seu filho.

— Não. Se eu não tiver você…

Rothbart balançou a cabeça com veemência, mas Ianna parecia não acreditar. Um sorriso frágil surgiu em seus lábios. Um sorriso tão tênue que parecia prestes a desaparecer.

— Eu cumpri minha promessa, Roth. Eu dei à luz ao nosso filho… Agora você deve cumprir a sua. Eu… preciso voltar ao meu mundo original. Há alguém que eu deixei para trás. Não posso deixar essa pessoa sozinha… Essa pessoa só tem a mim.

— Não… Ianna! Não vá, não me deixe!

Cruelmente, ela começou a se desaparecer dos braços de Rothbart. Ele a abraçou com mais força, mas suas mãos agarraram apenas o ar vazio.

— Ianna!

No escuro, os olhos de Rothbart se abriram enquanto ele gritava. Seus olhos carmesins brilhavam intensamente, mesmo na completa escuridão. Ao enfim acordar de seu sonho, Rothbart respirava com dificuldade.

— Você tenta fugir de mim não só na realidade, mas nos meus sonhos também.

Mulher cruel. Mesmo tendo desejado tanto por ela, ela não havia aparecido em seus sonhos nenhuma vez.

Talvez fosse por isso que, embora sentisse como se caísse sem fim naquele raro sonho com ela, ainda assim havia uma pequena satisfação por tê-la visto.

Movido por esses sentimentos contraditórios, Rothbart se sentou. Seu corpo perfeito, musculoso, estava encharcado de suor.

A razão para o sonho repentino era óbvia.

Aquela criada.

Ele estava drogado, sim, mas não a ponto de perder a memória. A fragrância lasciva e decadente que permanecia no quarto desde a noite anterior cutucava seu nariz, como um lembrete.

Rothbart recordou a maneira como ela se contorceu sob ele. Seu corpo esbelto e delicado brilhando pálido no escuro. Apertado, inexperiente… A lembrança da mulher que tinha o mesmo rosto de sua esposa fez seu corpo reagir outra vez.

Ela carregava um aroma desconhecido. Um aroma que nenhum humano deste mundo podia ter. Um aroma que apenas sua esposa exalava.

Seus pensamentos ainda estavam caóticos, mas sua decisão veio rapidamente.

— Barrett!

Rothbart chamou. Ele podia comandar seus servos juramentados mesmo à distância — um dos pequenos truques concedidos pelo sangue demoníaco.

Seu mordomo leal, Barrett, atendeu de bom grado ao seu chamado. Em pouco tempo, ouviu-se uma batida na porta.

— O senhor me chamou, mestre.

— Aquela criada.

Antes mesmo de Barrett entrar totalmente no quarto, Rothbart foi direto ao ponto.

— Designem aquela criada como minha camareira pessoal.

— Mas…

Rothbart havia dito apenas “aquela criada”, mas Barrett naturalmente sabia exatamente de quem ele falava. Havia apenas uma mulher que Rothbart poderia estar querendo falar.

Barrett já pretendia relatar sobre ela. Quando ela apareceu pedindo emprego na mansão, seu coração quase pulou do peito.

O mundo acreditava que a Marquesa estava morta, mas essa era apenas meia verdade. O funeral fora conduzido pelo pai de Rothbart, o Duque Albert, mas o próprio Rothbart jamais aceitou sua morte e continuou procurando por ela.

A verdade permanecia oculta, mas um fato era inegável: a criada se parecia demais com a Marquesa, cuja vida ou morte era incerta. Se ela era realmente a Marquesa ou não, apenas Rothbart poderia determinar. Por isso Barrett enviou com tanta urgência um telegrama. Embora nunca tivesse chegado a Rothbart, o destino parecia tê-lo trazido para casa mais cedo, e naquele mesmo dia ele a encontrou.

Ainda assim, pela atitude de Rothbart, ele não pretendia tratá-la como a Marquesa. Barrett se perguntava se aquilo era instabilidade ou uma decisão já consolidada.

Ao observar Rothbart, não viu qualquer hesitação. Embora repetindo, a decisão de torná-la sua camareira pessoal não era um capricho nem um impulso impensado. Os cantos de seus lábios se ergueram, revelando dentes afiados.

— O último experimento. Claramente falhou.

— …Sim.

— Foi o primeiro em que Svanhild interferiu.

— Sim.

Rothbart baixou a cabeça, os ombros tremendo enquanto soltava uma risada silenciosa, longa, amarga; meio zombeteira, meio carregada de rancor.

A névoa que pairava em sua cabeça devido ao sono e as drogas foram gradualmente se dissipando enquanto a euforia aumentava.

Além da idade errada, uma mulher que já carregou um filho agora tinha o corpo de uma virgem. E ainda por cima, sem memória…

Por causa dessas circunstâncias estranhas, Barrett não podia ter certeza se a criada Anna era realmente a Marquesa. Mas Rothbart… Rothbart não tinha dúvidas.

No momento em que a encontrou, sua alma tremeu em êxtase.

Invocar um ser de outro mundo sempre trazia incontáveis variáveis. Invocar um ser específico era quase um milagre. E o resultado deste experimento foi, indiscutivelmente, um sucesso, não perfeito, mas próximo disso.

Talvez ela não tenha perdido a memória. Talvez… incapaz de encará-lo sem vergonha, estivesse fingindo recomeçar. Viver como um cisne, como alguém do continente oriental, não era uma façanha fácil.

Como humana, era a pior escolha possível — mas Rothbart preferiria que ela se lembrasse, mesmo que fingisse amnesia.

Porque isso a atormentaria ainda mais.

— Tudo bem, seja qual for a razão… Ela deve ter algo a ganhar, rastejando de volta para cá com essa cara inocente. Não importa a intenção… eu não vou deixar essa chance escapar. Vou entrar no jogo.

Rothbart pretendia brincar com ela por muito, muito tempo — empurrando-a cada vez mais para o limite, até que secasse por dentro e fosse obrigada a revelar seu verdadeiro coração.

E se ela realmente não lembrasse de nada? Isso não mudava absolutamente nada. Ela ainda teria que pagar por seus pecados.

Ao murmúrio vingativo de Rothbart, Barrett soltou um suspiro. Para seu julgamento limitado, não parecia um curso de ação sábio, mas o ódio e a obsessão que Rothbart havia nutrido por mais de dez anos estavam além de qualquer coisa que Barrett pudesse comentar. Já que o Marquês havia decidido, ele só podia obedecer.

Com cautela, Barrett acrescentou:

— Ela tinha um acompanhante.

— Um acompanhante?

— Sim. Um homem que também parecia do continente oriental. Eles afirmam ser irmãos, mas… a forma como ele a tratava era íntima demais para meros irmãos… Talvez valha a pena o senhor conferir pessoalmente.

Barrett parou.

Mesmo que Rothbart não a tratasse como a Marquesa, ela estava longe de ser uma criada comum. O fato de tê-la escolhido como camareira já dizia tudo.

Seria possível que Rothbart tolerasse um homem rondando aquela mulher? Barrett esperava que ele explodisse de raiva.

Mas Rothbart apenas perguntou, com calma assustadora:

— Até onde? Eles se beijaram?

— N-Não! Nada tão grave! Só… o homem segurava a mão dela, ou a tocava de uma forma íntima demais…