Testemunha Perfeita - Capítulo 4: Desabrochar no Deserto
Domingo. Faltava menos de uma semana para o inferno de sábado; o clube de golfe e os mafiosos. O ritmo implacável havia drenado Daisy até o osso. Até suas sagradas corridas matinais haviam sido sacrificadas. Hoje, seu único dia de folga autorizado, ela se permitira uma hora extra de sono.
Poderia ter se enterrado no sofá com sorvete e uma série ruim na TV. Ou ter ido fazer compras. Mas Daisy reservava seus fins de semana para algo mais puro.
Por baixo do aço e das sombras de sua vida, uma velha paixão ainda tremulava: as plantas.
Criada sob o olhar escaldante do deserto, ela sonhara em construir um oásis: vegetação rara, água limpa, ar não contaminado por mentiras. Na adolescência, fantasiava com laboratórios de ecologia, ressuscitando espécies extintas, a ciência silenciosa do crescimento. Mas seu futuro havia sido decidido por outros.
Seu coração, porém, encontrara uma porta dos fundos para esse sonho. Sua vizinha, Martha Lang, era uma mulher carregada de anos, mas guardiã de uma verdadeira estufa científica. Os rumores diziam que ela havia trabalhado no Centro Global de Ecologia, sintetizando remédios a partir de flores em vias de extinção. Agora? Cultivava raridades e as vendia por quase nada.
A aposentadoria não havia diminuído o rigor de Martha. Macacões brancos esterilizados, luvas, equipamentos antiquados, mas calibrados com precisão. Aos setenta e poucos anos, sua mente continuava afiada como um bisturi. Ela ainda era a cientista exigente e brilhante.
E havia se tornado a única amiga de Daisy. Martha nunca bisbilhotava o passado nem a promotoria. Em vez disso, contava histórias de maravilhas botânicas. Daisy escutava, trabalhando ao lado dela na estufa, seu santuário silencioso.
Ajoelhada diante de uma longa mesa de plantio, vestida com um macacão branco esterilizado, Daisy sentia o tecido áspero mais limpo que qualquer seda. As grossas luvas de borracha, manchadas de substrato escuro, seguravam com cuidado uma frágil muda em seu vaso biodegradável.
“Esta aqui é a Plinia caerulea. ‘Elixir do Deserto’.” A voz de Martha era suave como folhas de palmeira roçando o vidro. Ela estava perto, um dedo fino e enrugado pairando sobre as folhas prateadas-azuladas. “Uma aristocrata temperamental. Odeia ser apressada. Está vendo o torrão de raízes?”
Ela se inclinou, uma mecha de cabelo prateado escapando do coque. Seus olhos aquamarina desbotados acompanhavam os movimentos de Daisy. “Mais finas que teia de aranha. Danifique-as e ela morre. Com delicadeza, querida. Como se estivesse segurando um passarinho recém-nascido.”
Daisy assentiu, os dedos trabalhando com graça concentrada. Ela soltou cuidadosamente as bordas do vaso, sentindo a delicada resistência das raízes jovens sob a borracha. Ali, no frescor úmido, interrompido apenas pelo sussurro da irrigação e pela voz de Martha, ela conseguia respirar. A máscara dela se dissolvia. Restava apenas Daisy. Apenas uma garota com terra sob as unhas. Seus movimentos, normalmente precisos e calculados, suavizaram-se em algo quase terno.
“Sabe, Daisy...” Martha largou a pequena pá e limpou a testa com o pulso. “Você me lembra tanto a minha Sarah. Igualmente teimosa.” Uma nostalgia calorosa desfazia as palavras. “Os olhos iguais aos seus quando algo a fascinava. Uma vez que ela decidia... nem Deus conseguia mudar sua opinião. Era louca por samambaias. As antigas...” Martha acenou com a mão para um canto sombreado, exuberante de frondes rendadas. “Mas você... você é a esperança do nosso deserto. Olhe para estas ‘Chamas do Cânion’ e juro que consigo ver a cidade inteira ficando verde através dos seus olhos.”
Um fantasma de sorriso tocou os lábios de Daisy. Um sorriso raro, de uma sinceridade crua.
“Obrigada, Martha. Isso... significa mais do que você imagina.” Ela acomodou a muda em sua nova morada. Ali, com Martha, não havia jogos. Apenas terra, raízes e uma compreensão silenciosa.
Foi nesse momento suspenso de paz, com os dedos enluvados pressionando suavemente a terra ao redor das raízes da Plinia caerulea, que o celular no bolso do macacão vibrou.
A vibração cortou o silêncio como um tiro.
Daisy congelou. Sua coluna se transformou em pedra. O santuário se estilhaçou. A realidade invadiu novamente. Quem? O trabalho? Seu pai? Sua mãe se gabando de algum novo “triunfo”?
“Ora, que inferno”, bufou Martha, embora seus olhos desbotados piscassem com preocupação. Ela viu Daisy enrijecer. “Mãos ocupadas? Deixa comigo...”
Sem esperar, Martha pegou o telefone com destreza. A tela acesa mostrava: Número Desconhecido.
“Quem diabos liga a esta hora abençoada?” murmurou ela, levando o aparelho ao ouvido. Não colocou no viva-voz; algum instinto lhe disse que Daisy não gostaria que a intrusão fosse amplificada.
Daisy inclinou a cabeça, olhando fixamente para as luvas manchadas de terra. Seu coração batia surdo. Não era Oliver. Não era Chaz. Não era Peter...
“Alô?! Quem tem a ousadia de nos perturbar às nove da manhã de um domingo?” Martha vociferou ao telefone, batendo o pé de jardinagem no chão. “Os jovens precisam dormir, não...”
Uma pausa. O rosto de Martha escureceu como nuvens de tempestade. Daisy, ainda ajoelhada, arregalou os olhos. Não esperava tanta ferocidade.
“Que ‘irmãzinha’ é essa?!” rugiu Martha, fazendo Daisy se encolher. “O senhor nem sabe que gente decente não liga a esta hora? Que falta de vergonha! Jovem, você tem algum tipo de educação ou só exigências?”
Daisy mordeu o lábio. A bronca de Martha (tão inesperada, tão ferozmente protetora) era... absurdamente refrescante. Os cantos de sua boca tremeram, lutando contra um sorriso traidor. Martha estava repreendendo Ash como uma avó furiosa. Por ela.
Martha escutou, as bochechas coradas de indignação.
“Ah, ‘negócios’?!” rebateu ela. “Que negócio é mais importante que o sono de domingo? Ou do que regar as criações de Deus? Leve isso para o tribunal amanhã! Minha assistente está salvando o ‘Elixir do Deserto’! As mudas não esperam!” Ela lançou um olhar para Daisy; uma mistura de raiva justa e carinho sem limites.
Daisy captou aquele olhar. E o sorriso que ela tentara conter enfim escapou. Não foi largo. Apenas um leve brilho no rosto normalmente impassível. Mas estava lá. Um calor afiado inundou seu peito. Martha não apenas compartilhava sua estufa com ela. Ela a protegia. Sua paz. Seu santuário. Como família.
“Três da tarde? No ‘Tropicana’?” O ombro de Martha se contraiu como se lhe tivessem oferecido veneno. “Tudo bem. Vou dizer a ela. Mas não ouse ligar novamente em horários indecentes! Entendido? Que impertinência!” A última palavra saiu como gelo. Absoluta. A ligação encerrou.
Martha apertou a tela com força e jogou o telefone sobre uma mesa de trabalho limpa, como se fosse erva daninha.
“Ugh!” Ela limpou as mãos no avental como se tivesse tocado algo sujo. “Que audácia! Quem é esse... Ash? Educação de pulgões em rosas premiadas!”
Daisy tirou lentamente as luvas. O fantasma do sorriso ainda pairava. A raiva fria pela intromissão de Ash ainda fervilhava, mas agora se misturava a algo novo; gratidão. A sensação de ser defendida.
“Ele é... um conhecido recente”, disse ela, rouca, mas com um calor que vazava na voz, acendido pela fúria de Martha. “E, aparentemente, minha nova dor de cabeça. Obrigada, Martha. Por... interceptar.”
Martha bufou, já menos irritada.
“Bobagem, criança. Posso ter ossos velhos, mas este coração sabe reconhecer: as boas almas merecem seu santuário.” Ela acenou para as mudas. “Agora, não vamos deixar essa peste estragar a manhã”, acrescentou com uma leve piscadela. “Nosso ‘Elixir’ precisa ser salvo!”
Aqui está a tradução literária, fluida e bem revisada, com as falas entre aspas duplas (“ ”):
O Café Tropicana era um caos familiar e acolhedor: brilhante, barulhento, com cheiro de café queimado e doces açucarados. Vinhas de plástico, cores berrantes e uma algazarra de vozes criavam a ilusão de um paraíso barato e artificial. Ash havia escolhido uma mesa ao fundo, aninhada junto a “vinhas” de janela; um véu frágil de privacidade.
Daisy se agarrava à calma residual da estufa. Ash parecia ligeiramente menos irritante. Recusar encontrá-lo não era uma opção; era o favorito do pai, o autoproclamado “irmãozinho”. Ela pegou o cardápio de plástico grudento e aquecido pelo sol, sentindo o contraste dissonante entre o clima de resort e o encontro tenso.
Ela espetou uma folha de alface sem pressa. A bebida de Ash chegou: um copo alto de suco de laranja violentamente alaranjado, coroado com um guarda-chuvinha de papel. A condensação fria escorria pelas laterais. A luz do sol, fragmentada pelo líquido, projetava uma mancha neon-laranja sobre a mesa.
“Seu suco de laranja espremido na hora, senhor.” Ash presenteou a garçonete com um sorriso ofuscante. Ela desapareceu.
“É só isso?” Até o controle de ferro de Daisy rachou, um leve franzir quase imperceptível da sobrancelha.
O corpo magro de Ash deu de ombros. Ele estava agasalhado de forma estranha para o calor de abril em Canyon Springs: um suéter fino de gola alta e calças flare de seda que engoliam seus pés. Tecido caro, mas sufocante. Pequenos brincos de prata com pingentes de cristal; o único vestígio de seu antigo brilho.
“Estou de dieta.” A voz dele saiu monótona. Ensaiada.
“Ash, por quê? Você já está pele e osso.” O tom dela era clínico. Sem calor. Sem julgamento. Apenas fato.
Ele congelou. Os nós dos dedos ficaram brancos onde os dedos apertavam a borda da mesa. Seu rosto expressivo se transformou em pedra. Os olhos, antes verde-mar tropical, escureceram para um azul tempestuoso. Ele não respondeu. Apenas encarou a superfície polida da mesa como se tentasse incendiá-la. Um silêncio denso caiu, quebrado apenas pelo barulho de pratos vindos da cozinha.
“Por que todo esse teatro, Ash? Poderíamos ter resolvido isso por telefone. Ou amanhã no tribunal.” O garfo dela tilintou com força contra o prato.
Ash se sobressaltou como se despertasse. Pegou o copo, deu um gole exagerado e bateu-o de volta na mesa. A máscara de leveza voltou ligeiramente rachada, mas familiar.
“Ah, sim! Negócios!” exclamou com uma alegria forçada. “O papai... Theodore... Ele insistiu que você recebesse isto!” Um saco de papel kraft sem graça apareceu debaixo da mesa. Daisy o pegou. Era leve, mas volumoso. Uma caixa. “Use no sábado. Ordens dele.”
Theodore continuava puxando os fios, ditando até sua aparência para os parceiros das sombras. Daisy expirou num silvo baixo e furioso.
“Tudo bem...” A irritação perfurou o gelo. “Por que pessoalmente? Um mensageiro teria bastado.”
“Bem...” Ele abriu as mãos num gesto teatral. “Estou livre durante o dia. Theo está ocupado. E você... não tem o dobro da minha idade.” Havia um fio inesperado de... solidão na voz dele.
“Está com saudade de amizade?” O tom de Daisy era suave, mas um fogo frio faiscou em seus olhos cinza-acinzentados. “Nós não somos amigos.”
“Eu pensei... que compartilhávamos um... problema em comum. Poderíamos...” ele começou, o tom brincalhão desaparecendo.
“Não, Ash. Ele não é um problema. Ele é uma maldição. E você...” Ela fez uma pausa, escolhendo a palavra como um bisturi, “...você é uma praga invasora. Especialmente quando se arrasta para dentro da minha vida.”
O sol poente sangrava em tons de carmesim e ouro sobre Canyon Springs. Eles saíram para a rua. A tensão pairava entre os dois como um fio esticado. Ash parou na calçada, sua sombra se alongando, longa, fina e frágil como um junco.
“Ei, mana...” Ele se virou, a tentativa de leveza soando forçada. O cansaço cavava sulcos profundos sob seus olhos, evidentes na luz agonizante. “Não vai embora correndo. Caminha comigo? A cidade... fica bonita ao anoitecer. Você mora perto, não é?” Ele acenou com a cabeça na direção da cobertura dela.
Daisy abriu a boca para uma recusa cortante. Algo a deteve. A palidez anormal dele? O fantasma daquele silêncio vulnerável no café? Ela deu um aceno curto.
Caminharam em silêncio. Um silêncio constrangedor, mas desprovido da hostilidade anterior.
“Então... a estufa?” perguntou Ash de repente, rompendo o quietude. Sua voz estava incomumente suave, sem qualquer artifício. “Você é... assistente da promotoria. Tem uma cobertura. Mas bem... terra, suor, plantas. Não combina contigo.”
O olhar de Daisy acompanhou a silhueta de uma palmeira contra o céu machucado. A pergunta a pegou desprevenida.
“Eu queria...” começou ela devagar, as palavras pesando como algo estranho, “...ser bióloga. Ecologista.” A frase “transformar a cidade num oásis” ficou presa em sua garganta. Alta demais. Ingênua demais. “Estudar a vida. Criar algo... limpo. Vivo.” Ela se calou, surpresa com a própria honestidade. Para ele.
“Caramba. Sério? Nunca teria imaginado.” Ele parecia encolher no crepúsculo que se aprofundava, o perfil frágil como porcelana. “Eu...” A voz dele baixou, tingida de vergonha. “...queria ser ator. Sonhava com o palco. Aplausos. Queria ser uma superstar. Podre de rico.” Fez uma pausa. Seu sussurro saiu cru, carregado de uma tristeza dolorosa: “Para poder dar à minha mãe... uma vida. Uma vida bonita. Sem... toda essa sujeira.”
Uma agulha gelada perfurou o coração de Daisy. A primeira palavra verdadeira que ele dizia. Sobre dor. Sobre perda.
“Você ainda tem tempo, Ash”, disse ela automaticamente, mas um fio de algo que se assemelhava a sinceridade a surpreendeu. “Atuar. Riqueza. Nunca é tarde demais.” Um reflexo social, desprovido de sua mordacidade habitual.
Ele parou bruscamente. Virou-se. Seu rosto na penumbra estava mortalmente pálido, quase translúcido. Seus olhos eram buracos negros sem fundo naquele oval austero.
“Ela morreu”, as palavras foram arrancadas dele, um sussurro rouco. “Eu tinha doze anos. Então... o sonho morreu com ela.” Um sorriso amargo distorceu sua boca. “Não consegui dar a ela aquela vida bonita. Nunca.”
De repente, os olhos dele reviraram, mostrando a parte branca. Ele cambaleou como uma marionete com os fios cortados. Daisy se lançou instintivamente, segurando o corpo que desabava no momento em que os joelhos dele cederam. A sacola com o vestido bateu surdamente no asfalto. Ash era assustadoramente leve, quase sem peso, como um saco de ossos envolto em pele quente de febre. Ele pendeu mole contra ela, a testa suada e gelada pressionada contra o pescoço dela. Sua respiração era superficial, irregular, entrecortada.
“Ash!” A voz dela cortou o silêncio como um tiro. Nenhuma resposta. O rosto cinza-pálido, os lábios com um tom azulado. Um pânico frio e familiar apertou sua garganta. Inanição. Desidratação. Estresse. Colapso.
Sem hesitar, movida por puro reflexo profissional, ela puxou a mão para trás e deu-lhe um tapa forte e ardido. O impacto foi preciso, calculado para chocar.
“Acorda! Agora!” A ordem foi absoluta. Um veredito.
Ash deu um solavanco violento. Os olhos dispararam sem foco, lutando para se estabilizar. Um gemido baixo escapou dele enquanto tentava se afastar em vão. Ele simplesmente ficou pendurado ali, tremendo como uma folha em meio à tempestade. Na palidez de porcelana da bochecha, a marca carmesim da mão dela se destacava.
“Onde... onde eu...?” murmurou ele, a cabeça pendendo para trás.
“Quieto.” A voz de Daisy era aço, toda suavidade evaporada. Ela apertou o braço ao redor da cintura dele, sentindo as saliências afiadas das costelas e da coluna através do suéter fino. “Você vem comigo. Agora.”
Seus olhos calcularam instantaneamente a distância até sua cobertura, seu santuário mais próximo. Sua fortaleza estéril ficava a poucos passos.
Apoiando-se pesadamente nela, Ash só conseguia arrastar os pés, dócil e instável. Seu peso não era físico, mas o fardo esmagador da impotência, o abismo de dor que ele acabara de expor e que o derrubara. Daisy o guiou com firmeza, o rosto uma máscara impassível de assistente da promotoria. Por dentro, uma confusão cega e furiosa rugia. Ela havia tocado no segredo dele, se chocado com seu desespero, e agora arrastava esse inimigo, esse camaleão, esse nó de agonia alheia para dentro de sua última cidadela.
As paredes de vidro da cobertura captavam as primeiras estrelas, mas Daisy estava cega para elas. Seu mundo se estreitara à figura frágil que ela depositara em um banco alto na ilha da cozinha. Ash parecia uma criança perdida no vasto espaço estéril de concreto e cromo. Ela o colocara ali, perto dos recursos e sob controle rígido.
“Quando foi a última vez que você comeu?” A voz dela soou como o clique de uma trava sendo solta. Não era uma pergunta. Era um protocolo de diagnóstico.
Ash encarava o brilho branco-mortuário do balcão. Os dedos apertavam a borda do banco, os nós brancos como osso.
“Ontem à noite...? De manhã? Anteontem, talvez...” A voz soava oca. Ele fez um gesto vago com a mão. “Não me lembro.”
Tudo dentro dela se contraiu. Anteontem. Quarenta e oito horas sem comer, num corpo que já era só ossos. Ela se virou bruscamente para os armários.
“Você vai comer agora. Ingestão mínima. Ou você morre no chão da minha cozinha, e eu teria que explicar isso pro Theodore...” Ela não completou a frase. O peso assustadoramente leve dele, o desabamento como um boneco de pano, havia acionado nela um espasmo primitivo próximo ao pânico, um reflexo afiado por testemunhar a morte, mas despreparado para seu avanço lento dentro de seu próprio espaço.
Ela se moveu com a eficiência fria de um cirurgião. Leite desnatado. Aveia instantânea. Mel. Uma papa fina e sem graça que era um remédio para um estômago destruído. Nada supérfluo. Combustível de sobrevivência, não uma refeição. Enquanto a papa fervia, enchendo o ar com um fantasma de conforto doméstico, ela encheu um copo com água.
“Beba. Em pequenos goles.” Ele pegou o copo com as mãos tremendo como folhas de álamo, conseguiu dar dois goles como se engolisse cacos de vidro.
Ela se virou por um segundo para colocar a panela na pia. Quando voltou, a tigela de papa continuava intocada.
Ash estava curvado sobre si mesmo, uma cortina de cabelos negros como carvão escondendo seu rosto. Mas Daisy viu. Viu os ombros magros estremecendo com soluços silenciosos e convulsivos. Viu as lágrimas pesadas e mudas caindo de trás daquele véu no chão polido, deixando manchas escuras de vergonha. E ouviu. Ouviu o sussurro engasgado e rouco, carregado de uma angústia desumana:
“Desculpa... desculpa... desculpa...”
Ele repetia como um amuleto contra demônios, um mantra de expiação; para ela, para o mundo, para a mãe morta, para si mesmo. Aquilo não era um colapso nervoso; era um desmoronamento. A fome e o estresse haviam simplesmente arrancado a tampa de um abscesso purulento de dor, selado por anos sob a máscara do amante de voz doce. E agora tudo se derramava ali, naquele bunker frio e estranho, diante de Daisy Lockwood... Era o símbolo de tudo que ele deveria odiar.
Daisy se transformou em pedra. Sua respiração desacelerou e se aprofundou. Não havia irritação. Apenas uma análise fria: Colapso psicogênico agudo. Regressão. Seus dedos cravaram no balcão de concreto. E agora? Conforto? Algo alheio à sua natureza. Deixá-lo? Ele cairia e racharia a cabeça.
Ela deu um passo. Não na direção dele. Na direção da tigela. Pegou a colher. Colheu meia colherada da papa morna. Segurou-a perto da cabeça baixa dele.
“Ash.” A voz saiu nivelada como um bisturi. Firme. Irrefutável. “Coma. Agora. Uma bocada.”
Os soluços não cessaram, mas a cabeça dele se ergueu minimamente. De trás da cortina úmida, os olhos verde-mar tempestuoso piscaram cheios de vergonha animal e perplexidade infantil. Ele viu a colher. Viu o rosto dela: impassível, mas não cruel.
“Des-desculpa...” ele expirou novamente.
“Pare de pedir desculpas e coma.” A colher pairava perto dos lábios dele como um desafio, uma tábua de salvação... Ou uma humilhação.
Ele abriu os lábios trêmulos como um autômato. Daisy deslizou a colher com cuidado, sem pressão. Ele fechou os olhos como se aceitasse veneno e começou a mastigar. Vazio. Submisso. Lágrimas escorriam por suas bochechas, misturando-se com o mel nos lábios sem cor.
Ela pegou mais uma colherada. Esperou o reflexo de deglutição. Ofereceu. O processo se repetiu. Num silêncio de tumba. Apenas a respiração entrecortada de Ash, o tique metronômico do relógio e o tilintar surdo da colher contra a porcelana.
“Estou enjoado...” ele murmurou rouco.
“Engula mais devagar. Seu estômago esqueceu o que é comida.” O tom dela não admitia contestação.
Ele comeu. Obediente. Um autômato. Cada colherada era um pequeno ato de desafio contra a morte, um passo para longe do abismo. E Daisy Lockwood, a encarnação da lei glacial, filha das sombras, cujas mãos conheciam relatórios criminais e lavagem de dinheiro, o alimentava. Um abutre cuidando de um filhote ferido. Uma geleira de cuja fenda brotava não piedade, mas um instinto indomável: não permitir que mais uma morte acontecesse sob sua vigilância.
Ele comeu menos da metade, mas para um estômago encolhido ao tamanho de uma maçã pequena, era o seu limite.
Ash não adormeceu; ele mergulhou no sono como num poço sem fundo de exaustão. Daisy, com um cuidado incomum, o guiou escada acima até a área de dormir. Ele tropeçava, agarrando o corrimão como um bêbado. Ao ver a grande cama com lençóis branco-neve, soltou um suspiro suave, quase infantil, de alívio e caiu de cara sobre ela, ainda de botas.
Daisy ficou parada, observando. O corpo magro dele afundou nos travesseiros e no edredom. Seu rosto, ainda marcado por lágrimas, estava virado para o lado. Ele inspirou profundamente, o nariz enterrado no travesseiro, e um leve sorriso de puro deleite tocou seus lábios.
“Macio...” murmurou ele, já caindo no sono. “...cheira a limão... parece o céu...”
Ele se enfiou ainda mais fundo, a respiração se tornando lenta, profunda e ritmada. Papa, calor, limpeza, segurança — o corpo dele exigia restauração. Daisy tirou cuidadosamente suas botas, deixando-as cair no chão, e cobriu-o com uma manta leve. Ele não se mexeu.
Lá embaixo, a cozinha guardava o caos silencioso de um sofrimento humano que havia invadido seu espaço. Daisy lavou metodicamente a tigela e a colher, esfregando os vestígios de aveia com mel.
“Que pena que ele não terminou”, pensou distraidamente, “teria visto o adesivo de borboleta infantil no fundo.”
A água estava quase escaldante, como se ela pudesse limpar não apenas a sujeira, mas também a sensação fantasma das lágrimas dele em seu pescoço, o peso leve demais em seu ombro e o mastigar obediente sob seu comando. A esterilidade da cobertura havia sido violada; o ar ainda carregava o cheiro doce e enjoativo de mel... e lágrimas.
Exatamente nesse momento, sobre a ilha da cozinha, o celular de Ash vibrou. O som foi agudo e invasivo, como um alarme. Daisy secou as mãos.
Algo explodiu dentro dela. O ódio frio e venenoso que guardava pelo pai se fundiu com uma nova e ardente fúria; por aquele garoto destruído que dormia em sua cama. Ela agarrou o telefone. Seu polegar apertou ATENDER com força suficiente para rachar o vidro.
“Ash, querido, por que você está demorando? Estou esperando...” A voz de Theodore, um verme envolto em veludo, deslizou para dentro de seu ouvido. Presunçosa. Saciada.
“É a Daisy.” Sua voz foi o golpe de um bisturi de gelo. Afiada. Precisa. Sem preâmbulos.
Um segundo de silêncio. Depois, uma risada baixa e desagradável.
“Daisy? Que curioso. Onde está meu pestinha? Coloque-o na linha. Ele sabe como eu detesto esperar.”
“Ele está dormindo”, cortou Daisy. Seus dedos apertaram o telefone até o plástico ranger. “E você, Theodore, está sendo negligente. Quer que ele morra? Pelo que ele mesmo disse, não come há dois dias. Ele desmaiou inconsciente na rua!”
“Ah, que dramática, não é, filha?” A voz de Theodore se suavizou como óleo, mas um aço perigoso ressoava por baixo. “Ele come muito bem comigo. Pode acreditar. Você é só... criativa. Inventando coisas.” Ele descartou as acusações como quem espanta uma mosca.
Daisy fechou os olhos. As peças se encaixaram: a magreza obsessiva, a recusa de comida no café, o colapso, o colapso depois de comer, o êxtase diante de uma simples papa... Bulimia. Anorexia. Ou uma combinação infernal das duas. O corpo dele rejeitava a comida como se fosse veneno, e Theodore... Theodore simplesmente o usava. Como um objeto.
“Ele não vai hoje à noite, Theodore”, disse ela, enfatizando o nome, e não “pai”. “Ele está gravemente doente. Eu o alimentei. Ele está dormindo. E eu não vou acordá-lo.”
O silêncio na linha engrossou como fumaça tóxica. Quando Theodore falou novamente, o veludo havia desaparecido. Sua voz saiu baixa, rouca, carregada de um ciúme repentino e acre.
“Alimentou ele... colocou ele para dormir... na sua cama, Daisy?” Ele arrastou as palavras, impregnando-as de sujeira. “Interessante... Está planejando confortá-lo você mesma? Enquanto o coitadinho se recupera?”
Veneno. Veneno puro e concentrado. A raiva de Daisy ferveu em branco. Como ele ousava! Ousava insinuar aquilo! Macular seu espaço, sua misericórdia forçada, com aquela mente nojenta e lasciva!
“Pai”, a voz dela desceu ainda mais, cada palavra uma lâmina temperada em nitrogênio líquido, “você mesmo disse que ele é como um irmãozinho para mim. É assim que estou tratando ele. E você não vai fodê-lo esta noite... Entendido?”
Ela não esperou resposta. Não ouviu o rugido de fúria que já rasgava o alto-falante. Simplesmente arremessou o celular de Ash contra a ilha de concreto polido com toda a força do ódio acumulado.
A carcaça se partiu. A tela se transformou numa teia de aranha de linhas pretas sobre a imagem piscante do nauseante Papai🩷. A vibração morreu. A ligação foi cortada. No súbito silêncio da cobertura, restaram apenas a respiração irregular dela e o tique-taque implacável do relógio.
Daisy ficou parada, olhando para o telefone destruído. Tremores de uma fúria impotente ainda percorriam suas mãos. Ela havia explodido. Aberta e claramente. Por causa do amante do pai. Por causa daquele nó de dor e desespero dormindo em sua cama, cheirando a raspas de limão.
Por quê? amaldiçoou ela por dentro, já parada à porta do quarto. Por que subir para verificar?
Ele dormia encolhido em posição fetal, como se tentasse absorver toda a dor do mundo para dentro de si. A manta havia escorregado; o suéter barato subira, expondo até as omoplatas uma costas pálida e excessivamente magra. Sua respiração estava regular, e o rosto, na meia-luz, parecia quase infantil, sereno, despido da habitual brincadeira ou tensão. A ironia era cruel: um anjo esculpido pelo diabo, aninhado na luz mutante dos postes que entrava pelos lençóis.
Lockwood estendeu automaticamente a mão para puxar a manta e cobrir aquela vulnerabilidade desajeitada. Sua mão parou no ar. Na parte inferior das costas dele, logo acima da linha do quadril, floresciam hematomas lívidos — não recentes, mas ainda não antigos, hematomas profundos da cor de ameixas podres. Com cuidado, quase sem respirar, ela levantou um pouco mais a borda do suéter.
As costas de Ash não estavam apenas espancadas. Estavam esfoladas. Cicatrizes antigas, esbranquiçadas, de chicote cruzavam vergões mais recentes e vermelhos — marcas de punhos, cintos, algo pesado e rombudo. Aqui e ali, pontos escuros e crostosos: queimaduras de cigarro. Um mosaico brutal de dor, aplicado com crueldade metódica. Theodore. Havia batido nele. Torturado. Violentado. Uma reação em cadeia de decomposição, onde a vítima de um homem se tornava o tormento de outro.
Daisy fechou os olhos com força, sugando o ar com um chiado, como se tivesse levado um soco no estômago. Puxou a manta até o queixo de Ash, cobrindo as evidências como um criminoso esconde provas. Por dentro, sob a fachada gelada de seu rosto, um vulcão rugia — um desprezo feroz e animal pelo pai, e uma vergonha suja e pegajosa pela parte dele que vivia nela. Pelos Vanderbilt. Pelo DNA que carregava como uma marca.