Testemunha Perfeita - Capítulo 9: Calor Sufocante
09h30. Final de abril.
Daisy parou diante de uma porta maciça de madeira escura. Uma placa de latão exibia, em letras gravadas com severidade: Detetive B. Cloud. Três batidas secas e a porta rangeu, abrindo-se apenas o suficiente para que ela entrasse.
"Detetive Cloud? A senhora solicitou minha presença?" A voz de Daisy saiu equilibrada, profissional, afiada como uma lâmina.
"Lockwood. Entre." Brenda se recostou na cadeira, soltando uma pesada nuvem de fumaça antes de apagar o cigarro no cinzeiro. Uma pasta grossa, etiquetada como Caso Nº 4782-A, foi fechada com um baque surdo sob sua palma. "Os materiais estão prontos para serem transferidos para a promotoria. No entanto…" O olhar dela varreu as paredes, detendo-se na grade de ventilação. Um dedo longo, de unha curta e bem cuidada, pressionou o canto saliente de um dos documentos. Sua voz baixou para um sussurro metálico, quase inaudível: "…preste atenção especial à evidência física V-36. Iniciei a remoção temporária dela do cofre de evidências para análise adicional. O laboratório pode ficar ocupado com isso por um bom tempo, desviando recursos…" Ela deixou um silêncio carregado pairar no ar, os olhos cinzentos e gelados prendendo Daisy no lugar. "…enquanto o foco principal deve ser na localização e identificação da arma do crime. A prioridade está clara?"
"Perfeitamente clara, detetive." Daisy aceitou a pasta, surpresa com o peso. O olhar de Cloud era afiado, penetrante como um raio-X. Uma mulher perigosa. O acordo silencioso entre elas pairava denso e não verbalizado no espaço que as separava.
"Para qualquer esclarecimento sobre os materiais, use minha linha direta." Com um movimento habilidoso, Brenda tirou uma caneta-tinteiro pesada de um suporte de aço. O mecanismo clicou com firmeza. Num rabisco rápido e descuidado, ela anotou um número num pedaço de papel e o colocou sobre a pasta nas mãos de Daisy, como se fosse um papel qualquer.
No bilhete: um número de celular. E abaixo, sucinto: V-36.
Os dedos de Daisy cravaram na capa de papelão, os nós dos dedos esbranquiçados. Todos os documentos relativos às evidências estavam ali, em suas mãos. Agora sua tarefa era garantir que a própria evidência — não apenas o rastro de papel — fosse permanentemente apagada. Sem possibilidade de recuperação.
Daisy se espremeu para dentro de seu escritório vazio, Peter estava preso numa reunião. Uma sorte. Ele não fuçaria na pasta antes da hora. Folheando metodicamente os documentos, ela congelou na página necessária.
Uma carteira de motorista. Plantada no bolso da vítima. Limpa demais. Deliberada demais. Uma armação clássica. O alvo: Theodore.
Sarah Evans. Data de nascimento: 15/03/1980. Daisy notou imediatamente a discrepância. O modelo da carteira era antigo, do início dos anos 2000. Não circulavam mais há anos, muito menos entre os moradores locais. A fotografia: uma mulher no início dos vinte anos. Uma Sarah de quarenta e cinco? Impossível. Tão jovem? Que tecnologia arcaica poderia preservar a carne daquele jeito?
Os dados já haviam sido apagados do banco central. O funcionário estava “esperando” por aquilo, só restava a destruição física. O importante era remover todos os vestígios dos materiais destinados a Peter. Para que nem uma sombra de dúvida surgisse.
Daisy dobrou a folha com a carteira de motorista quatro vezes ao meio, transformando-a num pequeno retângulo denso, e a enfiou silenciosamente no bolso interno do blazer. Jogou a pasta pesada sobre a mesa de Peter, os papéis se espalharam. Que ele mesmo vasculhasse.
Para o promotor Miller, a V-36 já não existia.
Noite. Uma descida fria até o porão. A escada mergulhava no piscar doentio e esverdeado de uma única lâmpada, cercada por insetos noturnos. Eles se chocavam contra o vidro como cavalos enlouquecidos e sedentos num bebedouro. Daisy desceu e seu pé prendeu na borda fria de uma rampa.
"Droga…" escapou entre seus dentes enquanto ela recuperava o equilíbrio.
O eco oco dos saltos no concreto soava como explosões no silêncio sepulcral do subsolo.
Um homem estava sentado num círculo de luz vindo de um abajur de mesa. Usava óculos redondos com armação grosseira e translúcida. O cabelo havia recuado, deixando apenas uma fina coroa grisalha. O rosto era inesperadamente gentil, sem tensão, e a voz, quente como um cobertor.
"Ah, Srta. Lockwood?" Ele se endireitou na cadeira de rodas. "Eu estava esperando pela senhorita. Três anos no departamento técnico não foram em vão, as câmeras e microfones aqui embaixo estão desativados." Um leve sorriso tocou seus lábios.
"As chaves, Jimmy." Daisy estendeu a mão bruscamente, os dedos se fechando com impaciência.
"Lockwood. Meu sobrenome é Lockwood" cortou ela. O homem assentiu, uma sombra de tristeza passando rapidamente por seus olhos. Ele recuou com a cadeira de rodas, mergulhando na penumbra além da luz do abajur. Os tocos de suas pernas, logo acima dos joelhos, envoltos firmemente em compressão, pareciam espectrais na meia-luz. O rangido suave e persistente da cadeira acompanhava cada movimento.
"Ainda a mesma garota quieta de quando era criança. Eu sabia que você acabaria seguindo um caminho sério."
Daisy não conhecia os detalhes da tragédia de Jimmy, mas um pressentimento vil sussurrava: culpa de Theodore. Era espantoso, aquele homem não guardava rancor. Mesmo sabendo quantas pessoas os Vanderbilt haviam destruído. Mergulhar na dor dele era insuportável. A própria marca de “filha” que carregava já era pesada o suficiente.
Por que Jimmy continuava servindo Theodore? A pergunta pairava no ar, mas a resposta não mudaria as regras do jogo. Cada passo a levava para mais perto da liberdade.
"Aqui está, Srta. Lockwood. Boa sorte." Ele entregou a chave da porta e um chip para o cofre. Daisy assentiu e entrou na escuridão da porta de serviço sem olhar para trás.
As luvas de borracha estalaram ao serem esticadas sobre seus dedos. O cofre abriu-se silenciosamente. Dentro dele, um saco zip-lock transparente. E dentro do saco, uma carteira de motorista rachada pelo tempo. A chave para a identidade da mulher morta. Sarah Evans. Ruiva, sorrindo na foto. Filha, irmã, amante de alguém… Perdida para sempre. Sua família, se é que tinha uma, jamais saberia a verdade. O plástico frio do saco deslizou para o bolso interno do blazer dela. O canto duro pressionava suas costelas. Uma garantia. O documento da evidência seguiu o mesmo caminho.
Jimmy ainda estava sentado em sua ilha de luz, o olhar triste e compreensivo seguindo Daisy. Ela deu um último aceno e começou a subir.
E então, uma sombra surgiu no vão da porta. Alta, vestida com uniforme policial. Oliver.
"Dais?" A voz dele transbordava choque silencioso. Ele parou no topo da escada, os olhos arregalados de incredulidade. "O que você está fazendo aqui embaixo? A esta hora? Com o Jimmy?"
Um choque gelado atravessou Daisy. O sangue fugiu de seu rosto. Suas pupilas se contraíram até virarem pontinhos. Um passo para trás — instintivo, como um animal encurralado. Exposição? Fugir? Lutar? Suas unhas cravaram nas palmas das mãos — a dor aguda trouxe clareza. A máscara. Precisava da máscara. Agora.
"Fazendo cruzamento de dados?" Sua voz saiu um pouco rouca, mas já sob controle.
O rosto de Oliver estava mortalmente pálido. Seu olhar carregava horror: seria ela uma traidora? Teria ele se enganado tanto sobre ela?
Daisy subiu um degrau, ficando no mesmo nível que ele. Uma confiança fria a envolveu como uma armadura. A máscara da “promotora honesta” encaixou-se perfeitamente.
"Trabalho da detetive Cloud" afirmou ela, com voz clara e profissional. "Eu tinha dúvidas. Estava limpo demais… suspeito demais. Se você me perguntasse quem é a toupeira dos Vanderbilt aqui…" ela fez uma pausa calculada "…eu diria o nome dela."
Oliver soltou o ar, a tensão escorrendo de seus ombros. Um alívio sincero, quase infantil, iluminou seu rosto.
"Você também percebeu?! Meu Deus, Dais, estou impressionado!" Ele se aproximou, os olhos brilhando. "Eu também estava pensando nela! Tem algo errado. Desde o começo." A fé dele nela era quase tocante e perigosamente letal. Ele havia comprado a mentira. Completamente.
"Ainda é cedo para tirar conclusões" rebateu Daisy, com o profissionalismo contido de quem sabe o que faz. "Mas estou monitorando a situação. Para garantir que nada interfira na investigação."
A mentira habilidosa desceu como manteiga. Jogar Cloud, aquela predadora perigosa, debaixo do ônibus foi… quase prazeroso.
A partir dali, Oliver praticamente irradiava luz, trocando olhares cúmplices com ela e assentindo como se fossem parceiros num jogo perigoso. Em seu rosto lia-se claramente: “Somos nós dois contra ela!”. Um filhotinho ingênuo. Um idiota útil.
A amarílis explodia na cobertura com fanfarras escarlates, um fogo intoxicante e venenoso no meio do reino gelado de mármore e cromo. Cada pétala era uma lâmina em brasa cortando a esterilidade mortal de sua fortaleza. A flor respirava, vivia, exigia atenção; o fantasma teimoso e persistente de Ash, de sua vitalidade ardente e insuportável. Era como se a própria alma do rapaz tivesse brotado através do barro, fincando raízes na solidão dela. À noite, quando a cidade lá fora se transformava num punhado de estrelas frias, Daisy quase conseguia sentir um calor físico irradiando da flor, como um toque através do tempo.
"Oh?" escapou dela involuntariamente. Ao virar o vaso, viu: do outro lado do caule robusto, um novo botão forçava caminho. Pequeno, mas forte, cheio de seiva.
Os cantos de seus lábios — frios, habituados a uma linha dura — tremeram. Algo quente, pequeno e dolorido espetou sob suas costelas. Um sorriso? Quase.
E Ash? Fazia duas semanas que não se viam. Ele não havia ligado, não aparecera sem ser convidado, não pedira ajuda aos prantos. Talvez tivesse superado a dependência dela? Ela deveria ficar feliz pela segurança dele. Mas… o vazio no fundo do estômago era enlouquecedor.
O que era aquilo? Por que aquele vazio gelado no peito? Pegava-se olhando para a amarílis dez vezes por dia: às vezes hipnotizada, às vezes melancólica.
Era uma distração. Uma tentação para esquecer o principal: ir embora. Terminar seus assuntos. Arrancar à força a liberdade que lhe fora prometida de Theodore. Escapar daquele inferno de concreto e corrupção, onde cada respiração era envenenada, cada canto grampeado, cada sombra um possível assassino. A cidade-prisão, a cidade-cicatriz precisava ser deixada para trás, apagada do mapa de seu futuro.
Esses dias haviam sido um ponto de virada. Em meio ao caos de emoções, uma resolução de ferro havia surgido: manter distância de Ash. Escolher a própria vida. A própria liberdade. Não a dele.
De repente, o celular vibrou. Número desconhecido. O coração dela deu um salto cansado. Ash? Seus dedos, subitamente desajeitados, agarraram o aparelho.
"Alô?" Sua voz saiu mais afiada do que pretendia.
"Srta. Lockwood. É o Frank." A esperança desabou. Foi como levar um balde de água morna na cabeça. Daisy revirou os olhos para o teto, onde o ventilador zumbia, claramente perdendo a batalha contra o calor.
"Boa noite, Frank. Aconteceu alguma coisa?" Sua voz recuperou a suavidade gelada, a máscara voltando ao lugar.
"Seu pai deseja vê-la no almoço de amanhã. Acredito que seja seu dia de folga?"
A entonação dele era impecavelmente educada, mas carregava a confiança de quem mantinha a agenda dela num bloquinho.
"Você já cruzou minha agenda?" O sarcasmo escapou como vapor sob uma tampa.
"Srta. Lockwood, sua presença é obrigatória. Até amanhã." O clique da ligação encerrada cortou o silêncio.
Daisy ficou parada, o telefone ainda quente na mão, sentindo o gosto amargo da própria ingenuidade na língua. De novo. Seus nervos, desgastados pelo calor e pela expectativa, haviam pregado uma peça ridícula. Ela havia desejado ouvir Ash — sua risada, sua respiração irregular, a única coisa capaz de romper aquela apatia pegajosa. Mas ele, aparentemente, já não se importava.
E não foi você mesma que o afastou? É lógico. A Lockwood sem emoções não foi feita para alguém como ele. Uma parede de gelo não deixa o calor passar. Certo?
Ela precisava traçar uma linha. Dura. Definitiva. Provar isso. Para si mesma. Para ele. Para o mundo inteiro.
Início de maio era um inferno de calor. O sol castigava sem piedade, o ar acima do asfalto tremulava com a névoa de calor, fazendo os contornos da propriedade de Theodore ondularem como algo irreal. Daisy caminhou pelas lajotas escaldantes da entrada, sentindo o vestido grudar imediatamente nas costas. As duas pequenas pintas sob o olho pareciam especialmente escuras hoje contra seu rosto pálido e cansado.
Ela desabou numa cadeira no hall de mármore, ligeiramente mais fresco. O brocado com fios de ouro arranhava sua pele aquecida. Recostou-se, abrindo os braços, e soltou um suspiro pesado. O zumbido dos ar-condicionados era um fundo abençoado.
"Srta. Lockwood…" Frank apareceu como uma sombra. Em sua mão, um copo alto cheio até a borda de gelo, limão e um líquido transparente. A condensação escorria abundantemente pelas laterais. Ele vestia uma camisa leve de linho e calça — uma liberdade inédita para o mordomo geralmente impecável.
"Obrigada…" Daisy pegou o copo sem ânimo. O frio queimou seus dedos. Ela o pressionou contra a testa, depois bebeu o líquido gaseificado e gelado com avidez. No começo, foi apenas salvação contra o calor. Depois veio o leve sabor de limão e refrigerante doce. E só nos últimos goles — o rastro oleoso e ardente da vodca, habilmente disfarçada. Ela não se importou. Era refrescante. Colocou o copo vazio na mesa, sentindo uma onda agradável de calor se espalhar a partir do estômago.
"Como você… não evapora aqui fora?" murmurou ela, abanando-se com a mão. "Tem algo… mais forte que isso?" perguntou, apontando para o copo.
"Obrigado, senhorita, está suportável. Sim, o Sr. Vanderbilt recomendou fortemente que garantíssemos seu máximo conforto para… recuperação. Ele espera vê-la bem descansada e de bom humor." Frank gesticulou levemente em direção às portas abertas da varanda. De lá vinham risadas estridentes, barulho de água e batidas graves de música. Um grupo selecionado de jovens se divertia na piscina esmeralda: garotas de micro biquínis, rapazes com torsos musculosos. "Todo esse… recurso recreativo está à sua disposição. Para um relaxamento completo."
Daisy se levantou lentamente. Sua coluna se esticou como uma corda tensa. Seu olhar deslizou sobre o grupo barulhento com indiferença gelada antes de voltar para Frank. Seus lábios se torceram numa careta sutil, mas inconfundivelmente desdenhosa.
"Vocês têm outra piscina?" perguntou ela, num tom uniforme e claro.
Frank levou Daisy até outra varanda que dava para uma lâmina de água lisa como um espelho. O espaço estava deserto e anormalmente silencioso.
"Diga a Theodore que meu humor permanecerá bom se me deixarem em paz" declarou ela, sem inflexão. Ao cruzar o limiar pelas portas abertas, jogou suas coisas de praia no sofá claro mais próximo.
"Claro, senhorita… Um lembrete: o almoço é em uma hora. Por favor, não se atrase." O homem inclinou a cabeça respeitosamente e desapareceu atrás de um biombo de madeira entalhada. Que funcionário modelo. Daisy soltou um suspiro pesado.
No banheiro fresco, ela trocou rapidamente de roupa, vestindo um maiô preto inteiro prático — simples, sem vulgaridade, apenas conforto funcional. Prendeu o cabelo num coque apertado e entrou na água fresca da piscina. Em alguns pontos, jatos subaquáticos disparavam agulhas geladas que picavam sua pele. O álcool já havia evaporado com o suor, mas os ritmos insistentes da música pareciam ainda persegui-la.
Ou talvez não estivessem apenas na cabeça dela? Lockwood aguçou os ouvidos. A melodia vinha de trás de um biombo próximo. Aparentemente, havia outra área de descanso ali.
A curiosidade venceu a cautela. Ela saiu silenciosamente da água e, agachada, aproximou-se como uma gata da divisória de madeira, espiando por uma fresta. A poucos metros, uma pessoa estava meio deitada numa espreguiçadeira. Suas pernas bronzeadas balançavam ao ritmo da música, os lábios se movendo sem som, cantarolando a melodia contagiante.
A luz do sol se emaranhava em seus cabelos escuros. Ash. Com aparência despreocupada. O bronzeado havia se intensificado, quase escondendo os hematomas e cicatrizes nas costas, deixando apenas sombras pálidas.
Daisy saiu decididamente do esconderijo e pigarreou para chamar atenção. Cruzou os braços sobre a barriga num gesto protetor.
"Ah, mana, é você?" Ash virou-se instantaneamente, semicerrando os olhos contra o sol, e se acomodou melhor na espreguiçadeira de palha. Seu sorriso continuou desarmante e terno, os movimentos leves, quase sem peso, como se flutuasse acima da superfície. "Quanto tempo. Theo disse que preparou um lugar especial pra você. O que te trouxe aqui?"
"Ele me preparou acompanhantes, piscina de champanhe e outras vulgaridades. Não é meu estilo. Pedi algo mais simples."
"Mmm, então o destino mesmo te trouxe até mim, hein, Daisy?" Um arrepio traiçoeiro desceu pela espinha dela ao ouvir como ele pronunciou seu nome com doçura.
"Por que não ligou? Não faz tanto tempo que você precisava desesperadamente da minha ajuda." A voz dela era de aço. "As cicatrizes… quase sumiram."
"Remoção a laser nas cicatrizes. Depois vinte minutos na cabine de bronzeamento. Voilà!" Ele gesticulou graciosamente sobre o próprio corpo. "E sobre as ligações…" ele fez uma pausa, escolhendo as palavras "…achei que você provavelmente estava certa… sobre mim. Sobre nós. Eu esqueci meu lugar."
"As palavras de Chaz te afetaram?"
"As suas também, Daze." Ele se levantou e se aproximou. Agora ela o via por inteiro: um corpo magro e tonificado, realçado pelo bronzeado. A definição dos abdominais na cintura estreita, o contorno das costelas marcadas. A pele parecia seca e aveludada, sem um único pelo — tudo meticulosamente removido. O short curto e claro, molhado e grudado nas coxas, ficava translúcido em alguns pontos, deixando brechas provocantes.
Um espasmo traiçoeiro apertou baixo em sua barriga; o coração acelerou.
"Vamos só relaxar hoje, de verdade" propôs Ash de repente, com uma animação forçada. "Você tem jacuzzi no seu quarto?"
"Uma jacuzzi. Banheira de hidromassagem. Sabe…"
"Eu sei o que é uma jacuzzi" cortou ela. "Acho que não."
"Quer ver a minha? Não se preocupe, Theodore saiu há uns dez minutos. Ele costuma se atrasar." Antes que Daisy conseguisse organizar os pensamentos, Ash já a puxava pela mão para dentro da sala de verão. No canto, embutida no piso, havia uma jacuzzi compacta mas profunda, com apoios confortáveis. Taças de coquetel meio vazias descansavam neles.
Antes de entrar na água morna e borbulhante, Ash pegou uma das taças num suporte próximo e deu alguns goles rápidos.
"Então, me conta, como você tem passado?" Ele entrou na água com confiança, descendo pela escada embutida. Estava perto demais; as pernas deles se tocaram debaixo d’água. Ela sentia a pele de Hollow com cada célula do corpo. Não conseguia erguer os olhos para encontrar os dele — o magnetismo era perigoso demais —, mas ele estudava atentamente o rosto corado dela.
"Garanti que o caso fique num beco sem saída." A voz dela soou gelada, pétrea, sem vida.
"Desculpa, papo de trabalho… Talvez a gente possa falar de outra coisa? Tipo… você sentiu minha falta?" A pergunta dele foi provocadoramente direta. Daisy congelou. Sua hesitação sozinha já poderia ser uma resposta, mas Lockwood recuperou o controle:
"Não. Se você não está me incomodando, significa que está indo bem."
Ash parou. E então sua risada clara e genuína encheu a sala, pegando a garota de surpresa. As pontas dos cabelos escuros estavam molhadas, o pescoço bem desenhado brilhava com água, gotas traçando caminhos pela pele.
Exatamente nesse segundo, a porta da sala rangeu ao se abrir. Não completamente. Uma voz grossa e áspera veio da fresta. Theodore. Ele havia voltado mais cedo do que dissera a Ash. Hollow lançou um olhar assustado para Daisy; debaixo d’água, sua mão apertou convulsivamente o pulso dela.
"O que a gente faz? Se ele vir…" sibilou Daisy, o terror gelado apertando sua garganta. Os olhos de Ash vasculharam freneticamente o interior enquanto Vanderbilt terminava uma conversa com alguém logo do lado de fora da porta. O rapaz puxou bruscamente o braço de Daisy, empurrando-a para a frente — para debaixo da borda da jacuzzi. Era um ponto cego: quem passasse ou ficasse em pé acima não conseguiria vê-la.
"Encolhe as pernas e não se mexe. Desculpa te apertar… Não quero que o Theo tenha ideias." Ash sentou-se escarranchado sobre os quadris dela, apoiando os cotovelos na borda para protegê-la com o corpo. Agora o rosto dela estava pressionado firmemente contra o peito e o abdômen úmido dele, e as coxas dele prendiam seu tórax. O corpo dele reagiu instantaneamente com excitação — carne dura e quente pressionando a parte superior firme do maiô dela. Daisy prendeu a respiração. Não podia se entregar.
"Ash, meu doce. Voltei. Não consigo encontrar a Daisy em lugar nenhum." A voz de Theodore estava bem ao lado deles.
"Sério? Ela vem hoje?" A voz de Ash soou surpreendentemente calma, com o tom quente de sempre. Mas Daisy, pressionada contra seu peito, conseguia ouvir o coração dele martelando descontrolado, prestes a explodir. E a pressão estranha e firme contra ela tornava-se cada vez mais evidente.
"Sim, esqueci de te avisar. Ela já deveria estar aqui. Frank!" Theodore gritou na direção do mordomo que se aproximava e virou-se novamente.
Ash abaixou a cabeça bruscamente na direção de Daisy, presa em sua “morsa”. Soltou um riso baixo, quase histérico, a adrenalina batendo forte. Suas coxas tremiam levemente debaixo d’água.
"Quieta… desculpa, por favor" sussurrou Hollow, uma das mãos acariciando o rosto ardente dela. Então ele se endireitou rapidamente, justo quando Theodore se virou de volta para ele.
"Frank disse que ela pediu outra piscina. Em algum lugar por perto." Theodore parou bem na frente de Ash. Daisy ouviu um roupão pesado cair ruidosamente no piso de azulejo. Ele está se despindo?
"Está a fim de uma brincadeirinha, Ash? Enquanto esperamos o almoço?" A voz aveludada de Theodore era doce e monstruosa.
‘Que merda é essa?! Ele está pelado?! Não! Isso não! Agora não!’ O grito mental de Daisy estilhaçou o silêncio. Ela queria pular, gritar, correr — mas precisava aguentar. Por Ash. Para que Theodore não a visse ali. Precisava fazer Ash agir, não simplesmente esperar que o pai dele entrasse na água com ele naquele exato momento!
Daisy beliscou a coxa dele debaixo d’água com toda a força. A perna de Ash deu um espasmo, quase escorregando.
"Eu… eu achei que tinha ouvido alguém na varanda ao lado. Talvez seja ela. Seria… constrangedor, né…" A voz de Ash tremeu. Theodore se inclinou mais para baixo; um único dedo tocou os lábios úmidos e frios do rapaz. "Depois do almoço, tá?"
Theodore ficou imóvel. O silêncio dele pesou mais que uma sentença. A respiração de Daisy e Ash parou completamente.
"Tudo bem… Você tem razão. Daisy ficaria… desconfortável ouvindo sua… voz. Não é mesmo?" O homem corpulento se abaixou, pegou o roupão com estampa paisley e o jogou sobre os ombros. "Vou me trocar. O almoço será servido em breve."
A porta se fechou com um clique abafado.
Ash pareceu derreter, deslizando da borda para dentro da água, ficando cara a cara com Daisy. Os dois trocaram sorrisos nervosos — o dele mais brilhante e natural. O coração dela ainda martelava descontrolado, ecoando nas têmporas. Lockwood de repente percebeu o quão perto ele estava. Perto demais.
O olhar dele desceu até os lábios dela e se demorou ali. Lentamente, ele se inclinou. Daisy congelou, consciente apenas da pulsação nos ouvidos e do ardor nas bochechas.
Ele a beijou. De novo. Primeiro com cautela, apenas os lábios frios roçando os dela. Testando. Depois, com pressão insistente, exigindo uma resposta, pedindo que ela se abrisse. As mãos dele seguraram seus pulsos; as pernas prenderam seus quadris contra o fundo, impedindo qualquer movimento.
"Ash…" escapou dela num sussurro, e mesmo aquele sussurro carregava dúvida, luta.
"Que “Ash”?" Ele olhou direto nos olhos dela, o olhar suplicante. As sobrancelhas se ergueram levemente naquele gesto característico de interrogação. "Eu sei que você quer… E eu quero. É só um beijo. Só um beijo."
Daisy ergueu lentamente as mãos e as entrelaçou atrás do pescoço dele. O corpo inteiro de Ash estremeceu.
"Só uma vez" sussurrou ela, rendendo-se.
Ele colou os lábios aos dela. Com ardor. Sem controle. Como se quisesse despejar naquele beijo toda a paixão, o desespero e a proximidade proibida que se acumularam por dias e semanas. O corpo de Daisy respondeu com um tremor traiçoeiro. Quando suas mãos deslizaram pelas costas molhadas dele, Ash arqueou o corpo levemente na direção dela, soltando um gemido baixo. A vibração daquele gemido passou dos lábios dele para os dela.
"Ash, a gente precisa ir…" tentou ela, afastando-se por um segundo.
"Não, mais…" Ele não deixou que terminasse, capturando seus lábios novamente, mais fundo, mais insistente, a língua exigindo passagem. Ash tinha um gosto doce; sua pele cheirava a mel floral e ao calor salgado da água.
"Ei, Ash…" Daisy tentou contê-lo, a voz rouca de desejo e medo. "Chega. Se acalma."
"Não, agora não" sussurrou ele, os lábios encontrando o pescoço dela, úmidos e quentes. Uma onda poderosa de arrepios percorreu o corpo dela; os ouvidos zuniram e um calor insistente e traiçoeiro floresceu entre suas pernas. Ele sabia. Um conhecedor do prazer, um mestre em tocar as cordas alheias. Ele se afastou um pouco, olhando para ela de cima. Suas pupilas estavam enormes, abismos negros onde era fácil se afogar. Os dedos esguios dele ajeitaram os fios pesados e molhados do cabelo dela.
"Olha pra mim" murmurou ele, miserável. "Eu odeio ele, odeio com todas as minhas entranhas… Mas você… Você pode fazer o que quiser comigo. De verdade. A gente podia foder aqui mesmo, agora, se você só dissesse uma palavra."
"Não, Ash." A palma quente e firme dela pousou no ombro tenso dele, empurrando-o para longe. "Por que você quer isso? O que existe entre nós não é o que você imaginou."
"Não é o quê?" Ele pisou no fundo da jacuzzi, soltando-a do aperto escaldante. A água correu para preencher o vazio repentino entre eles. "Então o que é?"
"O que acabou de acontecer. Um beijo. Eu não sei o que ele faria comigo se descobrisse. E com você…" A voz de Daisy tornou-se gelada, como um bisturi. "Você quer acabar como aquela garota? A que encontraram outro dia?" Ela saiu da jacuzzi com um movimento brusco. O ar frio do ar-condicionado bateu em sua pele molhada, trazendo-a de volta à realidade instantaneamente. "Vou te contar um segredo, Hollow. Normalmente, os corpos nem são encontrados. Sabe para onde eles desaparecem?"
Ash ficou paralisado, observando-a. O fogo em seus olhos se apagou, substituído por cautela.
"Para o deserto. Sem deixar rastros." As palavras caíram como pedras.
O olhar do rapaz tornou-se intenso, afiado. Ele sabia que ela estava certa. Estavam brincando com fogo à beira do abismo. Daisy já se virava para sair de trás do biombo, de volta ao seu falso oásis de paz.
"Ei, Daisy…" A voz de Ash soou estranhamente séria. Ela se virou e viu o mesmo sorriso desarmante e familiar, a máscara por trás da qual o horror se escondia. "Eu vou ligar."
Daisy respondeu com um sorriso tenso, quase imperceptível, e desapareceu atrás do painel de madeira entalhada, deixando-o sozinho com as bolhas e o medo.
A mesa de jantar era um campo de batalha onde Daisy lutava contra a náusea. Theodore Vanderbilt profanava metodicamente o prato requintado. O garfo rangia contra a porcelana mais fina, marcada com o selo de luxo. Ele abria a boca sem pudor, mastigando o frango gorduroso com um estalo monstruoso. Uma película brilhante de óleo e sucos cobria seus lábios, gotas caindo sobre a toalha branca como neve e deixando manchas engorduradas. Ele chupava os ossos, estalando os lábios, os dedos grossos reluzindo de gordura. Um animal, pensou Daisy, engolindo um nó de nojo. Um animal mimado, pervertido, corrompido pelo dinheiro.
O olhar dele deslizou até Ash. O rapaz simulava participação na refeição: levava um garfo vazio à boca, fingindo mastigar. Seu prato continuava quase intacto. Ele tagarelava, tentando preencher o silêncio opressivo; histórias leves, risadas suaves. Mas só bebia água. Os goles eram frequentes e nervosos.
Daisy também não havia tocado em nada. Não era o calor abafado nem a visão da comida que a enjoava; era a visão dele, aquele monstro devorador sentado à sua frente, que revirava sua alma. Cada som que ele fazia, cada movimento de sua mandíbula, provocava um espasmo em seu estômago.
"Por que não está comendo, querida?" A voz dele tentava soar carinhosa, mas a falsidade arranhava os ouvidos, tornando-a ainda mais repulsiva. Seus olhos — frios, avaliadores — não tinham nada a ver com ternura paternal.
"Está quente" respondeu Daisy, curta e seca, a voz sem emoção. Uma pedra.
"Ah, sim!" Theodore acenou com a mão gordurosa ainda segurando o garfo, como se regesse uma orquestra de vulgaridade. "Tragam a sobremesa! Sorbet de manga congelada. Lembra, Dais? Você adorava quando era criança." Ele disse aquilo entre estalos de boca, como se quisesse deliberadamente profanar até essa lembrança.
"Sim… gostava" murmurou ela automaticamente, o olhar fixo no prato que surgia à sua frente. Porcelana cara, com uma borda dourada. E no centro — uma meia esfera de sorbet laranja delicado, coroada com uma laranja desidratada crocante. O aroma — uma explosão de infância, pureza, um verão há muito perdido — invadiu seu nariz. Doce, inocente, incompatível com aquele lugar, com aquele homem.
"Ela sempre foi tão sonhadora com a gente…" continuou Theodore, saboreando um pedaço de carne. Daisy se contraiu por dentro, rezando para que ele não deixasse escapar nada, não arrastasse algo íntimo para a luz e o pisoteasse. Quase contra a própria vontade, hipnotizada pelo aroma da infância, ela pegou uma colherzinha minúscula de sorbet. A doçura gelada se espalhou pela língua, o néctar mais delicado. Mas o sabor estava envenenado. Ele havia pedido aquilo. Ele lembrava. Não por amor, mas para lembrá-la de quem mandava, de quem controlava até suas memórias.
"Sério? De que jeito?" Ash entrou no jogo, com a voz forçadamente leve.
"E você, Ash, está gostando do nosso Canyon Springs? Mas a Daisy… ela sempre sonhou com lugares onde neva." Theodore falou com condescendência, como se falasse de um capricho bobo de criança.
"No inverno. Eu queria ver neve. Uma vez" corrigiu Daisy, seca, sem olhar para ele. Um desejo de infância, arrastado para a luz e exposto como um troféu. Sua paciência se esgotou. Ela empurrou a cadeira para trás com um ruído alto contra o piso. "Terminei. Obrigada pelo almoço. Preciso ir pra casa."
"Já?" Theodore finalmente parou de mastigar, o rosto fingindo uma decepção sincera, um teatro barato. "Mas mal conversamos, meu sol."
"Você me proporcionou “descanso”" rebateu Daisy, colocando aspas audíveis na palavra. Seu olhar gelado deslizou pelo rosto dele sem se fixar. "Além disso, ainda não terminei com o corpo daquela garota, sabe. A investigação. Isso está nos seus interesses, não é?" A última frase foi uma agulha de gelo.
Daisy escapou da residência do pai. Um tremor fino sacudia seu corpo — uma mistura de ódio e repulsa. Ash ao lado de Theodore parecia a imagem da calma, interpretando a sinceridade com precisão glacial. Ele era vil em sua indiferença ensaiada. “Uma boneca de corda, cantando sob o comando do dono”, passou pela mente dela.
Talvez fosse exatamente essa âncora, que o prendia irrevogavelmente ao seu algoz, o que impedia Daisy de deixar Ash entrar em seu coração. Visões piscavam diante de seus olhos: o próprio pai corrompendo a pessoa que havia despertado sentimentos novos nela. Esse pensamento vulgar se enterrava sob sua pele como uma larva, depositando ovos de raiva e nojo em seu interior.
Hoje à noite, ele estaria com ele novamente. E poucas horas atrás… ele a beijava, a abraçava, jurava amor…