Testemunha Perfeita
April 30

Testemunha Perfeita - Capítulo 10: Cercada

Sua mente atormentada finalmente soltou os pensamentos ansiosos apenas quando o calor do dia recuou por completo, rendendo-se ao ar fresco da noite, e as primeiras estrelas — ainda tímidas — se acenderam no céu escuro. Ela estava parada em frente à sua casa. Sozinha. A frescura da noite, como um bálsamo curativo, trouxe uma paz há muito esperada.

A porta do carro bateu com um som surdo. Daisy pisou na calçada, inspirando profundamente o ar carregado de poeira e da promessa da noite.

"Daisy! Boa noite!" Uma voz amigável, dolorosamente familiar, a fez virar. Na varanda da casa vizinha estava Martha, com seu avental de sempre, bordado com alegres girassóis. Algo no peito da garota se agitou, respondendo com um calor que parecia um verdadeiro retorno ao lar. "Querida, faz tanto tempo! Como você está?" A mulher deu alguns passos, arrastando ligeiramente os pés cansados.

"Srta. Lang…" A voz de Daisy saiu equilibrada, profissional, mas os cantos dos olhos suavizaram involuntariamente. "Desculpe não ter vindo visitar. O trabalho…"

"Ah, eu entendo perfeitamente. Não se desculpe. Quer entrar para tomar um chá?"

Um sorriso cansado tocou os lábios de Daisy.

"Claro."

A casa da Srta. Lang era o completo oposto de seu apartamento high-tech: modesta e discreta por fora, por dentro respirava um calor e um aconchego tão genuínos que Daisy relaxou os ombros sem querer. O ar estava denso e doce, impregnado do aroma de biscoitos de baunilha recém-assados, misturado ao cheiro delicado e inebriante de jasmim que florescia do lado de fora da janela e às notas meladas do chá de ervas. Vasos com plantas simples enchiam o ambiente: hera enrolava-se numa velha estante, violetas floresciam no parapeito da janela, e uma aloé se erguia com importância num canto.

Martha acomodou Daisy numa pequena mesa redonda coberta com uma toalha de renda desgastada, mas impecavelmente limpa, e colocou à sua frente uma xícara de porcelana fina, quase translúcida, com borda dourada. Pétalas brancas de jasmim seco e alguns botões de cravo flutuavam na água.

"Aqui, querida, beba e se aqueça…" Martha serviu-se de uma xícara do mesmo bule, usando uma peça do mesmo jogo; claramente algo querido e cuidadosamente guardado.

O chá quente e perfumado queimou seus lábios, mas sua doçura e calor se espalharam por dentro como um elixir curativo, acalmando seus nervos e lavando a sujeira do dia. Seu corpo ficou pesado, os pensamentos mais lentos.

"É como… estar em casa aqui" murmurou Daisy, sentindo a tensão finalmente se desfazer.

"Então imagine que esta também é a sua casa. Eu assei biscoitos, experimente um, fiz com mel." Martha fez uma pausa, o olhar ao mesmo tempo atento e suave. "Você parece exausta, Daze. Precisa descansar. De verdade."

"Eu descanso quando tenho tempo" respondeu Daisy automaticamente, partindo um pedaço do biscoito crocante.

"Então o que aconteceu?" Martha franziu as sobrancelhas ralas e grisalhas, o rosto expressando preocupação e uma compreensão sem fundo. "Talvez você possa me contar? Pode ajudar a aliviar."

"Desculpe, não posso. Segredos profissionais" cortou Daisy, mantendo a máscara habitual de impassividade, embora a voz tremesse levemente.

"Não é sobre o trabalho, querida…" Uma mão enrugada, mas surpreendentemente macia, cobriu seus dedos, acariciando-os com delicadeza. "O que está acontecendo aqui?" Martha tocou com o dedo a região sobre o coração da garota.

"Hah" uma risada curta e sem alegria escapou de Daisy. Contar para ela? Mas os pensamentos sobre Ash não a largavam. Ele era como uma erva daninha… não, um parasita, fincando raízes em seu cérebro. "Uma tempestade."

"Uma tempestade…" repetiu Martha, assentindo como se aquilo explicasse tudo.

"Sim. Eu não entendo o que está acontecendo comigo… com a minha vida…" A confissão saiu sozinha, honesta, mesmo que evitasse as arestas mais afiadas.

Martha ficou em silêncio, balançando a cabeça devagar. Dava para ver que ela escolhia as palavras com cuidado, buscando a melhor forma de oferecer apoio. Para Daisy, aquilo já era um luxo incrível — simplesmente saber que alguém via sua dor e se importava com seus sentimentos. Martha colocou a outra mão por cima e seu rosto se iluminou com um amor quieto e incondicional.

"Não se preocupe comigo. Eu dou um jeito. São dificuldades passageiras" disse Daisy, convencendo mais a si mesma do que a qualquer outra pessoa. Ela respirou fundo. "Eu decidi… sair de Canyon Springs no ano que vem." As palavras soaram inesperadas até para ela. Para quem estava contando? Para Martha? Ou tentando se convencer?

"Sério?!" A surpresa genuína na voz de Martha tocou Daisy, arrancando dela um sorriso fraco. "Por quê?"

"Estou cansada desta cidade. Do abafamento, do calor… Das pessoas… mesquinhas, perigosas. Quero paz… E aqui não dá pra trabalhar direito com plantas."

"Ah, é verdade, minha estufa mal está aguentando" assentiu Martha com compreensão. "Então você decidiu correr atrás do seu sonho? Isso mesmo, criança. Sempre escolha a si mesma. As pessoas vêm e vão, e muitas vezes enganam."

"Você tem razão…" sussurrou Daisy.

"Fique comigo esta noite. Dorme aqui? Tem um quarto livre lá em cima, a cama está limpa." O convite de Martha soou como uma bênção. Voltar para a sua cobertura, para aquele vazio agora envenenado pela presença invisível de Ash, era insuportável. Antes, o apartamento era sua fortaleza, seu refúgio. Agora… seu espaço pessoal parecia estranho, contaminado, tomado por um intruso.

O quartinho de cima respirava um conforto quieto, quase de museu. Tudo estava limpo e arrumado, mas com a sensação de que aquelas coisas não eram tocadas há muito tempo. Junto à janela havia uma cama simples de ferro. Sobre o travesseiro, como se esperassem pelo dono, repousavam alguns bichos de pelúcia desgastados: um urso com um olho só, um coelho com a orelha puída. Uma brisa leve da janela entreaberta agitava as dobras das cortinas de chita. Martha se aproximou e fechou a janela. O silêncio tomou o quarto, tornando-se de repente ressonante.

"De quem era este quarto?" perguntou Daisy, sentindo algo dolorido e desconhecido apertar seu peito.

"Este… era da minha filha" a voz de Martha ficou baixa, quase sem ar. Daisy percebeu que havia pisado num campo minado. "Não lembro se já contei… Ela… desapareceu." As últimas palavras foram quase inaudíveis.

Um calafrio gelado desceu pela espinha de Daisy. A náusea, familiar e odiada, subiu pela garganta. Algo dentro dela se contraiu num nó de mau presságio.

"Srta. Lang…" Daisy virou a cabeça lentamente. Seu olhar caiu sobre uma fotografia num simples porta-retratos de madeira, sobre o criado-mudo. Uma jovem vestida com toga de formatura, radiante, segurava um diploma. Seu sorriso era despreocupado, cheio de esperança. "Desapareceu? E… qual era o nome da sua filha?"

Martha suspirou, e o suspiro soou como um gemido. Seus olhos, normalmente tão claros e bondosos, de repente ficaram turvos, impenetráveis como pedras negras. As pupilas se fundiram com as íris, transformando-se numa escuridão sem fundo.

"Ah… o nome dela era Sarah. Acho que já mencionei algumas vezes."

Um suor frio brotou nas palmas de Daisy. Sua respiração travou, como se tivesse levado um soco no estômago. Na fotografia, sorrindo com vida e futuro, estava Sarah Evans. A mesma Sarah Evans cujo corpo mutilado ela mesma havia arquivado sob a etiqueta “Não Identificada”. A mesma Sarah Evans cujo caso ela havia encerrado, cujo nome havia apagado, cujas evidências havia destruído; tudo para proteger o império podre dos Vanderbilt. O império de seu pai, que, agora ela sabia com certeza, tinha participação na morte dela. Tudo aquilo apenas para salvar a própria pele maldita.

Por fora, ela permaneceu imóvel, apenas as pálpebras tremendo levemente. Mas por dentro, seu mundo desabou. Frio, náusea, horror avassalador e uma culpa corrosiva se fecharam ao seu redor como um torno de aço.


Daisy tentou dormir na cama estreita de Sarah. A doçura do chá de Martha envolvia sua consciência, puxando-a para o abismo do sono, mas um sentimento de ansiedade opressiva, como uma pedra gelada, pesava sobre seu peito. Traidora. A palavra queimava por dentro, deixando um filme amargo e acre em seu coração.

Escuridão.

Absoluta, densa, pegajosa. Ela a sugava, a consumia por completo. E então — corria. Selvagem, frenética, à beira do colapso. Um corpo que não era o seu corria através de matagais espinhosos, tropeçando em raízes invisíveis, os pés descalços triturando cascalho e espinhos nas solas. Os pulmões ardiam, soltando baforadas de vapor no ar frio. Suas costas estavam em chamas, como se tivessem sido rasgadas por um arado em brasa. Um animal caçado. Pânico puro e primal expulsava qualquer pensamento, deixando apenas o instinto: CORRA!

Era um jardim. Um jardim alheio, hostil. As sombras de árvores altas se fundiam em arcos escuros. O corpo se debatia, cego de terror, colidindo contra troncos, prendendo-se em galhos espinhosos. A consciência flutuava, enevoada por um véu turvo de adrenalina e dor. Cada respiração saía entrecortada, sufocada, como um gemido. O medo saturava cada célula, cada osso, transformando o sangue em uma gosma gelada.

E então eles apareceram. Sombras. Não apenas sombras de árvores — vivas, densas, blocos amorfos e enormes de escuridão. Elas brotavam da penumbra, cercavam-na, apertando o cerco. Avultando-se. Pressionando. Preenchendo todo o espaço, deixando apenas uma minúscula ilha de terror onde aquele coração alheio e atormentado batia.

"Não! NÃO!" um grito rasgou o ar. Uma voz rouca, masculina, quebrada num sussurro de desespero. Rios quentes e salgados escorriam pelas bochechas. Não eram suas lágrimas. Eram de outra pessoa.

E então, um golpe. Uma explosão ardente rasgando de dentro do abdômen. Daisy/ele olhou para baixo. Através do tecido rasgado da camisa, escorria uma massa carmesim, cobrindo os dedos: quente, pegajosa, nojenta de tão escorregadia. Sangue. Muito sangue. A dor não apenas cresceu, ela explodiu do ponto de impacto em ondas abrasadoras que irradiavam pelos músculos, pelas veias, queimando tudo por dentro. Outro golpe! Na lateral. Um machado? Um pé-de-cabra? O estalo ensurdecedor de uma costela. Outro! Nas costas. O corpo deu um solavanco como uma marionete puxada por fios. Sangue jorrou da garganta, ardente, salgado e metálico.

E então veio a corda. Grossa, fibrosa, cravando-se no pescoço. A garganta se fechou num torno. Dedos — os dela, não os dela — arrancavam freneticamente a corda, arranhando a própria pele até sangrar. Mas a ligadura só se enterrava mais fundo na carne, apertando mais e mais. A respiração foi cortada. Nos ouvidos, o uivo de um vento de pânico se misturava ao próprio gorgolejo rouco e mortal.

Ar! Precisava de ar! Não conseguia respirar. Apenas dor esmagadora, horror congelante e uma compreensão negra e sem esperança: O Fim. A morte se aproximava implacável, um peso frio e pesado, deslocando os últimos centelhas de consciência, os últimos lampejos de medo antes da escuridão eterna e devoradora.


Daisy acordou encharcada de suor gelado.

Suas mãos tremiam levemente, o corpo sacudido por uma febre pós pesadelo. A respiração saía entrecortada, rouca e irregular. Um nó subiu pela garganta. Ela queria não chorar, mas uivar, rasgar o silêncio com gritos que não lhe pertenciam. Conseguia sentir aquele sonho: cada segundo da agonia, desde o terror primal até o último suspiro gorgolejante. Como se a morte de outra pessoa tivesse sido marcada a ferro em sua carne.

Quem era ele? Quem o matou?

O toque estridente do celular do trabalho quebrou o silêncio. Não era um toque, era um dobre de finados.

"Alô?" A voz de Daisy soou estranha enquanto ela inspirava fundo, tentando se puxar de volta para a realidade.

"Dais, você não vai acreditar…" A voz de Oliver estava tensa, como se ele mesmo tivesse acabado de sair debaixo dos escombros. Um suspiro pesado no receptor. "Outro. Igualzinho. Encontrado ontem à noite. Peter quer a gente lá em uma hora."

O sinal de ocupado. Um silêncio mortal, preenchido apenas pelo eco daquele grito dentro do crânio dela. Daisy passou a palma da mão pelo rosto, afastando um calafrio fantasma, e se levantou. As paredes do quarto de Sarah, acolhedoras ainda ontem, agora exalavam o frio mortal de uma cripta, apertando-a num abraço de pedra.

Ao descer, Daisy encontrou Martha na cozinha. A mulher mexia algo no fogão. O ar estava denso e convidativo: omelete fresco, milho doce, ervas. Sobre a mesa, num simples prato de barro, vaporavam pãezinhos caseiros aromáticos. Martha, concentrada no preparo, não notou a hóspede de imediato. A luz suave da manhã — não tão escaldante quanto a do dia anterior — inundava o cômodo com um brilho quente.

"Ah, Daze! Dormiu bem?" Martha se virou, com um sorriso de uma pureza doméstica tão genuína que a ferida invisível aberta no dia anterior doeu com força renovada, vazando culpa.

"Preciso ir. Um chamado urgente." O rosto de Martha se anuviou, o olhar saltando do café da manhã apetitoso para Daisy. Ela deu um tapa leve no avental bordado com girassóis.

"Ah, que pena! Fiz tudo isso…"

Daisy odiava causar-lhe dor, mas ficar ali, aceitando aquela bondade e cuidado sem limites, agora parecia uma tortura. Uma traição dupla.

"É um assunto muito importante, Srta. Lang. O café da manhã, infelizmente, está fora de questão." Sua voz saiu neutra, o rosto tão neutro quanto. "asso aqui esta semana pra ajudar na estufa, se você deixar."

"Claro que deixo! Venha quando quiser!" Martha sorriu novamente, limpando as mãos num pano de prato com estampas de waffle.

"E… você me conta sobre a Sarah?" O pedido pairou no ar, pesado, mas Martha apenas assentiu com tranquilidade, como se esperasse por aquela pergunta há muito tempo.

O calor e os cheiros da casa de Martha foram substituídos pelo frio cortante e pela esterilidade química do necrotério. A luz brilhante e impiedosa das lâmpadas fluorescentes clareava tudo a um grau antinatural, refletindo no piso azulejado, polido até brilhar como um espelho e ligeiramente inclinado em direção aos ralos ao lado de cada mesa de autópsia de aço inoxidável vazia. Os verdadeiros senhores daquele lugar eram as enormes câmaras frigoríficas embutidas na parede: portas de metal fosco com maçanetas maciças que exalavam o frio eterno da sepultura.

Um patologista baixo e magro, de óculos com lentes grossas que distorciam seus olhos para tamanhos desumanos, guiou-os através de uma cortina de silicone que farfalhava no lugar de uma porta.

"Por aqui, Srta. Lockwood…" Daisy parou diante de uma das bocas de aço da geladeira, observando enquanto o patologista apertava botões no painel de controle com destreza. O zumbido dos motores aumentou.

"Como você… aguenta isso?" Oliver se encolheu, sua natureza sensível recuando fisicamente da proximidade da morte. Ele odiava aquele lugar.

"Dá pra suportar. Quem encontrou ele?" A voz de Daisy soou mecânica.

"Patrulha. Num beco entre os armazéns antigos. Por que você precisa ver?" Oliver estava perplexo.

Daisy não respondeu. Seu olhar estava fixo na bandeja deslizante. Um vapor frio e branco subia, tocando seu rosto com um beijo gelado. Sobre a bandeja jazia um jovem com mechas desbotadas de cabelo tingido, de um tom estranhamente vivo nas têmporas. O corpo — jovem, mas mutilado por facadas — exibia uma marca escura de ligadura no pescoço.

Paranoia? Mas Daisy achou que o reconheceu. Era ele. O mesmo do pesadelo. Aquele cuja morte ela acabara de reviver na cama. Suas mãos a traíram com um tremor, mas Lockwood apenas cerrou os punhos atrás das costas, mantendo uma calma glacial no rosto. Ela assentiu — curto, profissional.

O patologista, com a voz abafada pelas lentes grossas, apontou metodicamente para os ferimentos:

"Ferimento de faca aqui… outro ponto de entrada aqui, pelas costas… Mas a causa da morte é asfixia. Estrangulamento." Seu dedo cutucava o ar, marcando pontos num manequim invisível.

Daisy repetiu o gesto inconscientemente. Seu próprio dedo vivo tocou o ponto no abdômen onde a faca havia penetrado no sonho. Um toque frio na própria carne. Depois deslizou até o pescoço, onde a corda havia apertado. Ela conseguia sentir — a dor lancinante, a falta de ar. Seus olhos estavam vidrados, olhando através da realidade e direto para o pesadelo.

"Ei, Srta. Lockwood! Não faça isso" Oliver puxou bruscamente a mão dela, assustado e enojado.

"A Srta. Lockwood… é muito observadora" arrastou o patologista, lançando-lhe um olhar estranho. "A suposição está correta. Suficiente para o laudo?"

"Mais do que suficiente…" sussurrou Daisy, sem tirar os olhos do jovem cujo rosto pálido desaparecia lentamente de volta para o interior gelado da geladeira, engolido pelo metal e pelo frio. Como se o próprio necrotério estivesse devorando as evidências de sua loucura.


O escritório da detetive Brenda Cloud era um espaço familiar, quase íntimo para Daisy, mas hoje sua atmosfera pesava como chumbo. Brenda tragava nervosamente um charuto grosso — um acessório incomum, claramente um presente de alguma carteira generosa. A fumaça pairava numa névoa azulada.

"Mas a identidade dele está confirmada?!" retrucou Peter Miller, sentado na cadeira de visitas junto à mesa maciça, com uma agressividade rara. Daisy permanecia em silêncio, olhando para o padrão do piso como se quisesse se dissolver nas linhas.

"Confirmada. Caleb Dawson" respondeu Brenda, com a voz tensa. "É impossível determinar a hora exata da morte, já que o corpo foi embalsamado. No entanto, as informações sobre ele pararam de chegar há uns sete ou oito anos." A identificação foi um duplo golpe. Se a participação dos Vanderbilt fosse confirmada, as consequências seriam inevitáveis. "Antigamente, um modelo popular, ator… Havia rumores de trabalho como acompanhante, mas nada comprovado."

"Uma celebridade?" O olhar de Peter ficou afiado como um bisturi. Com a morte de figuras públicas, era sempre roleta-russa. Por um lado, a atenção da mídia poderia inflar o caso ao tamanho certo. Por outro... Garantia uma reação imediata de Theodore: silenciamento de testemunhas, desaparecimento de evidências, pressão. "Uma celebridade…" Brenda soltou um anel denso de fumaça.

"O que mais tem nos materiais?" interveio Daisy, com voz mecânica. "A arma do crime? Desapareceu de novo?"

"Nada. Que ódio dessas cenas limpas!" Brenda sacudiu a cinza com irritação. "Eles se materializam do nada, como fantasmas, sem deixar rastros. Um enigma sem resposta."

Caleb Dawson havia se tornado um novo e alarmante mistério. Daisy repassava mentalmente artigos e fotos encontrados na internet: um rapaz sorridente em tapetes vermelhos, frames de papéis secundários. Sua carreira havia decolado, ele até aparecera em produções de Hollywood. ‘Morreu com a idade do Ash’, notou ela, comparando datas. Por que seu desaparecimento não havia causado nenhuma onda? O mundo não se importava? Ou alguém muito poderoso havia garantido que ninguém se importasse?

Em casa, o calor sufocante reinava. Nem as cortinas grossas conseguiam proteger do sol agressivo. Apenas o jato gelado do ar-condicionado trazia alívio. Sobre a ilha da cozinha, a amarílis havia soltado mais um botão sinistramente aveludado. Daisy se aproximou automaticamente e borrifou água com o pulverizador. Gotículas se agarravam aos caules carnudos como lágrimas.

Ela estava diante do laptop, compilando mecanicamente um relatório sobre a última vítima para a promotoria. Um copo de água com gelo, tingida com xarope de melancia e limão, suava sobre a mesa, deixando círculos úmidos. Um gole trouxe um minuto de alívio fresco, mas seus pensamentos se recusavam a se concentrar. As palavras na tela borravam e nadavam, a mente se recusando a se prender a qualquer pensamento coerente. O corpo destroçado de Caleb. A frágil rebeldia de Ash. Eles piscavam atrás de seus olhos como uma apresentação de slides grotesca que ela não conseguia desligar. Um canário na jaula de um leão. Um movimento errado, um rugido súbito, e ele seria destruído. Assim como ele. Assim como todos eles.

Uma dor de cabeça apertava suas têmporas como uma faixa de aço, cada latejamento em contraponto ao pânico crescente. Suas palmas estavam permanentemente úmidas, os dedos tão frios que doíam com um entorpecimento surdo e profundo, como se os tivesse mergulhado em água gelada e esquecido de tirá-los.

Pela primeira vez em muito tempo, ela se obrigara a sair para correr. As ruas tranquilas do subúrbio pareciam seguras o suficiente. O crepúsculo se adensava quando seus dedos frios e ágeis giraram a chave na fechadura.

O ar fresco era uma carícia suave contra seu rosto corado, refrescando sua mente superaquecida. Sua respiração estava ofegante; nos ouvidos, um rugido ensurdecedor — o tambor frenético do próprio coração e o pulsar espesso do sangue nas têmporas. Os pensamentos negativos começaram a recuar, lentamente, abrindo espaço para raras memórias não solicitadas de Ash. Ela quase estava pronta para aceitá-las, para sentir novamente aquele estranho calor sob o plexo solar que, até então, a protegera de ser completamente consumida pelo pavor.

Ela se virou em direção a uma colina artificial perto do parque, de lá tinha vista para grande parte da cidade. A solidão ao redor parecia um sonho, sua realidade perfeita, onde não existia ninguém além dela mesma. Daisy parou no topo. As luzes cintilantes da cidade viva lá embaixo eram como um céu estrelado jogado aos seus pés, ou um rio de estrelas caídas belas e completamente distantes, cada luz uma vida que ela nunca poderia tocar, uma normalidade para sempre fora de alcance. Seu corpo, ainda zumbindo pela corrida, esfriava rapidamente no frio crescente da noite. Ela encostou as costas no corrimão gelado, cercada por arbustos espinhosos e solitários.

Sua vida inteira girava agora como um tornado, obliterando toda ordem e calma familiar. Existir como filha de Theodore nunca fora estável, mas pelo menos Daisy tinha uma certeza: o destino dos outros não a tocava. Mas agora… Cada novo caso, cada novo corpo, reabria feridas antigas. Era como andar em terreno nunca pisado, sem saber qual passo faria o chão ceder e a arrastar para o atoleiro.

Lockwood se espreguiçou, erguendo os braços bem alto, sentindo os músculos cansados das costas se esticarem.

Estaria ela fazendo a coisa certa ao encobrir os negócios de Theodore? Tinha se convencido de que era o preço pela misericórdia dele. Talvez um dia chegasse o momento em que pudesse fugir de Canyon Springs. Desaparecer. Dissolver-se.

Tudo aquilo era um erro monstruoso. Daisy não deveria estar mexendo nos assuntos dos mortos. Era apenas uma coincidência infeliz que esses corpos fossem encontrados… Não. Eles estavam sendo plantados. De forma descarada, grosseira, bem debaixo do nariz das autoridades, tornando impossível olhar para o outro lado.

Ela ouviu um estalo seco de um galho.

Lockwood girou o corpo instantaneamente. Nada. Um formigamento de ansiedade, mas não medo. Tensa, deu alguns passos confiantes em direção à parte não iluminada do caminho, a mão deslizando para o bolso; as chaves apertadas no punho, uma arma improvisada. O polegar encontrou a lanterna do celular e a acendeu.

Um pequeno jerboa de pernas longas saltou de debaixo de um arbusto. A tensão escoou dos ombros dela, deixando-a se sentindo tola e vazia.

"É só você…" murmurou Daisy, soltando o ar junto com o nó de ansiedade. Estranhamente, a criaturinha — uma mistura de rato e canguru — conseguira afastar até seus pensamentos mais obsessivos. O roedor ficou parado por um instante, bigodes tremendo, depois desapareceu na escuridão com alguns saltos largos e ágeis.

Ela se abaixou. Sua própria respiração soava alta no silêncio repentino. Ali, na terra compactada, havia uma marca. Não era pegada de animal. Era a impressão nítida e definida de uma bota pesada. Grande demais. Deliberada demais.

Alguém a estava observando? Não um ladrão, não um transeunte qualquer, mas um perseguidor silencioso e invisível.

Lockwood recuou um passo, o olhar varrendo rapidamente os arredores da trilha em movimentos quase desesperados. Ninguém a vista. Sua paranoia começava a devorá-la por dentro. O medo eterno de ser descoberta. O terror constante de dar um passo em falso.