O Túmulo do Cisne (NOVEL)
March 12

O Túmulo do Cisne (NOVEL) - Capítulo 3 (1/7)

O Demônio, Rothbart - Parte 1.

Quando Anna acordou pela manhã, remexeu em sua caixa de pertences pessoais com o rosto perturbado. Mas, por mais que procurasse, o que buscava não estava lá.

Ela murmurou, desanimada:

— Minhas roupas íntimas sumiram.

— O quê? Quer dizer aquelas roupas íntimas de seda?

Sua voz era baixa, mas foi o suficiente para que Susan, que ocupava a cama ao lado, ouvisse. Ao ser mencionado que as roupas íntimas haviam desaparecido, Susan se levantou em um pulo.

Na verdade, não eram de seda, mas de raiom. Ainda assim, para os outros pareceriam iguais. Naquele lugar, a maioria das pessoas usava roupas íntimas de algodão.

quelas peças eram algo que Anna trouxera de seu mundo original. Ela havia vendido a maior parte de suas roupas por conveniência, por causa dos olhares alheios, mas guardara suas roupas íntimas, pois não havia motivo para vendê-las.

— Você não as deixou cair enquanto lavava a roupa?

— Não.

— Então talvez alguém entre nós as tenha roubado…

Susan sussurrou em voz baixa, com uma expressão séria. Neste mundo, roupas íntimas de seda eram raras. Nenhuma das criadas que dividiam o quarto deixara de admirar as roupas de Anna.

Mas Anna balançou a cabeça. Não era um lenço ou algum outro objeto — eram roupas íntimas. E usadas, ainda por cima. O que alguém iria querer com aquilo?

— De jeito nenhum.

— Não, é totalmente possível… Claro, não acho que tenha sido nenhuma das garotas do nosso quarto. Ah, pensando bem…

Susan ficou pensativa por um momento e então acrescentou, ainda mais cautelosa que antes:

— Ontem eu vi a Governanta saindo do nosso quarto.

— A Governanta?

— Sim. Pensei que fosse apenas uma inspeção surpresa…

Não era incomum que a Governanta aparecesse de repente para verificar o estado do quarto. Mas imaginar que algo desapareceria depois disso… e justamente roupas íntimas.

— Você acha que a Governanta realmente as levou?

— Ela pode ter levado dizendo que eram itens inadequados… Por que você não pergunta a ela?

As palavras de Susan faziam sentido. Como os relacionamentos entre homens e mulheres na mansão eram rigidamente controlados, roupas e pertences pessoais também eram cuidadosamente controlados. Perfume, rouge escuro, meias de renda… roupas íntimas extravagantes também estavam sujeitas a restrições.

Anna suspirou. Quer a Governanta tivesse levado ou não, seria problemático tentar recuperá-las. Por mais lamentável que fosse, ela não tinha escolha a não ser desistir.

— …Se for esse o caso, ela vai me chamar para falar sobre isso. Por enquanto, não conte às outras que minhas roupas íntimas desapareceram.

— Está bem. Não fique muito para baixo. Eu posso te ajudar a costurar alguma renda nas suas novas roupas íntimas.

— Obrigada.

Anna forçou um sorriso para Susan, que tentava animá-la. Mas ela não conseguia forçar seu humor abatido a melhorar.

Com isso, o último item que ela trouxera de seu mundo original havia desaparecido. Não era nada especial, apenas um pertence comum.. Mesmo assim, era como se o caminho de volta ao seu mundo estivesse se tornando cada vez mais vago e distante, deixando seu coração inquieto.

Como esperado, em pouco tempo, a Governanta convocou Anna. Então tinha sido ela quem pegara as roupas íntimas.. Anna seria repreendida.

Ela soltou um suspiro silencioso.

Desde a manhã, nuvens escuras se acumulavam no céu e, à tarde, uma chuva forte começou a cair. Enquanto caminhava pelo corredor, o som da chuva batendo nas janelas ecoava incessantemente em seus ouvidos.. Em dias como este, a mansão parecia ainda mais misteriosa e arrepiante, e ela não podia deixar de remoer o apelido “Túmulo do Cisne”. Será que o nome realmente havia surgido apenas porque cadáveres de cisnes jaziam espalhados perto da mansão?

Anna não podia simplesmente descartar essa possibilidade. Viajantes de outro mundo eram chamados de cisnes… e cisnes de fato haviam permanecido naquela mansão antes de partir novamente. Poderia aquilo ser apenas coincidência? O nome pesava em sua mente com um significado sinistro.

Esses pensamentos terminaram quando ela chegou ao seu destino. Anna bateu na porta.

— A senhora me chamou, Madame Governanta.

— Sim. Entre.

Madame Dova, a Governanta, era uma viúva de quarenta anos. Um par de óculos repousava precariamente na ponta de seu nariz enquanto ela examinava um livro-razão. Assim que Anna entrou, ela o fechou. Anna permaneceu obedientemente diante dela, olhando com cautela.

Madame Dova encarou Anna diretamente.

— Algum desconforto em seu trabalho?

— Não. Estou bem.

— Se alguém a incomodar, me diga. Aquela preceptora também.

— Sim. Obrigada por sempre cuidar de mim.

Anna sentia mais desconforto com a gentileza de Madame Dova do que com Rose, que sempre a atacava. Pelo menos o comportamento de Rose era claro. Como sua malícia era evidente, Anna não precisava gastar energia tentando adivinhar suas intenções.

Mas Madame Dova era diferente. Naturalmente fria e pouco inclinada a demonstrar afeto às criadas, ela estranhamente prestava atenção especial apenas a Anna — sempre quando estavam sozinhas, longe do olhar das outras.

No começo, Anna pensou que aquilo fosse apenas a habilidade da Governanta de parecer rígida diante dos outros e gentil em particular. Mas, depois de ouvir Susan e as outras criadas conversarem, percebeu que não era o caso.

Após alguns meses, Anna passou a entender que era a única que Madame Dova tratava com tal consideração.

Mesmo assim, ela não conseguia simplesmente sentir gratidão.

Porque, apesar de demonstrar preocupação, Madame Dova às vezes insinuava sutilmente que Anna deveria deixar o trabalho. Anna nunca conseguia entender o que a mulher realmente pensava.

— Eu a chamei porque tenho algo para lhe dizer.

— ……

Mesmo que Madame Dova fosse gentil, isso não significava que ela deixaria de repreendê-la quando se tratava das falhas de Anna. Anna baixou o olhar em silêncio, esperando a bronca.

— O Marquês disse que a tomará como sua camareira pessoal. A partir de amanhã, você limpará o escritório do Marquês, e não mais o quarto do jovem mestre.

— Perdão?

Diante da declaração repentina, Anna esqueceu completamente de responder com humildade e ergueu o queixo em choque.

Camareira pessoal do Marquês? De repente? Tal coisa sequer existia na Casa de Lohengrin? O Marquês nunca tivera uma camareira pessoal antes.

Ao ouvir que a decisão vinha diretamente dele, o coração de Anna disparou violentamente.

— Por que… por que tão de repente? Por que eu…?

A resposta surgiu em sua mente no mesmo instante em que perguntava. A memória daquele dia — quando o Marquês havia retornado — apertou seu coração..

Será que ele se lembrava do que havia acontecido?

Ela havia acreditado que ele tinha esquecido e, aliviada, conseguiu finalmente respirar em paz. Mas estava errada. Ele apenas a deixou relaxar… para então atingi-la por trás.

“Pensei que ele me eliminaria imediatamente ao descobrir… mas…”

Ele tinha mais paciência do que ela imaginava. Bem, não era de se surpreender. Afinal, aquele era o homem que ansiava pela esposa falecida há mais de dez anos.

De qualquer forma, Anna precisava recusar o posto de camareira pessoal do Marquês — não importava o quê. Seja qual fosse a intenção dele, nada de bom poderia surgir ao permanecer perto de Rothbart. O risco era grande demais.

— Eu… eu não acho que conseguiria desempenhar bem essa função, Madame Governanta. Não faz muito tempo que entrei na casa. Há muitas criadas muito mais capazes do que eu…

Mas Madame Dova interrompeu suas palavras com firmeza.

— Isso não nos cabe decidir. Se o mestre dá uma ordem, tudo o que devemos fazer é obedecer em silêncio. Já que você reconhece suas próprias falhas, então apenas trabalhe mais para superá-las.

— Mas…

Quando Anna tentou protestar, Madame Dova acenou com a mão e abriu o livro-razão novamente, como se o assunto estivesse encerrado.

— De qualquer forma, essa é a decisão. Tenha isso em mente.

Anna abriu e fechou a boca várias vezes, mas diante da postura inflexível da Governanta, não conseguiu dizer mais nada.

No final, ela teria que servir como camareira pessoal do Marquês.

A menos que o próprio Rothbart mudasse de ideia, não havia escapatória.

Talvez ainda houvesse uma chance se Svanhild, seu atual protegido, implorasse para mantê-la ao seu lado…

Mas naquele instante, uma lembrança atravessou sua mente.

— Eu quero uma mãe, Anna.

As palavras que Svanhild havia sussurrado no corredor ainda ecoavam claramente em seus ouvidos. O pensamento fez Anna estremecer. Svanhild não a ajudaria. Ele simplesmente a empurraria diretamente para os braços de Rothbart. Anna só pôde reconhecer que estava completamente encurralada.

Cambaleando, virou-se para sair do quarto.

Foi então que um murmúrio de Madame Dova — quase como se estivesse falando consigo mesma — a fez parar no meio do passo.

— Talvez isso estivesse destinado a acontecer desde o começo. No fim, você estava fadada a ser notada…

O que ela quis dizer com aquilo? Anna virou a cabeça para olhar, mas Madame Dova estava sentada calmamente, lendo o livro-razão, como se não tivesse dito nada.

Pensando que talvez tivesse ouvido errado, Anna saiu do quarto em silêncio. A questão de quem havia levado suas roupas íntimas permaneceu um mistério. Mas Anna não tinha mais o luxo de se preocupar com tais coisas. O novo problema que recaía sobre ela era muito mais pesado.


SUMÁRIO:
  1. Livro-razão: o livro-razão era o grande registro contábil da mansão, onde todas as entradas e saídas de dinheiro da casa e das terras eram organizadas.